domingo, 19 de dezembro de 2010

Um Conto de Natal

É uma tradição alemã partilhar contos de Natal nesta época do Advento, e por isso decidi traduzir do alemão um belíssimo conto de Bertolt Brecht para que o aconchego intimista que tanto prezo no Natal também passe pelo nosso blog e pelos nossos pandorianos. Aproveito assim para vos desejar a todos um Santo Natal!
(RB)


"O embrulho do amor de Deus", Bertolt Brecht

Puxem umas cadeiras e tragam os vossos chás quentes para aqui, por detrás do fogão e não se esqueçam do rum. É bom estar quente quando se conta histórias do frio.

Algumas pessoas, especialmente aqueles homens que têm alguma coisa contra o sentimentalismo, têm uma forte aversão ao Natal. Mas houve pelo menos um Natal na minha vida que realmente ficou vivo na minha memória. Era véspera de Natal de 1908 em Chicago. Eu vim para Chicago no início de Novembro, e quando eu perguntei pelas vida nessa cidade, fora-me dito que este seria um inverno tão rigoroso, que tornaria ainda pior as condições de vida nesta tão desagradável cidade. Quando sondei por um emprego como caldeireiro, foi-me dito, que caldeireiros não tinham nenhuma chance, e quando eu procurei um lugar para dormir minimamente habitável, tudo era muito caro para mim. E muitas pessoas, de várias profissões, vivenciaram o mesmo, nesse difícil inverno de 1908 em Chicago.


Durante todo o mês de Dezembro, o terrível vento soprava do lago Michigan e nessa altura fecharam muitas fábricas, lançando uma avalanche de desempregados para as frias ruas.
Percorríamos todos os bairros, procurando desesperadamente por algum trabalho e ficávamos contentes quando à noite, juntamente com outras pessoas esgotadas, nos congregávamos num pequeno bar no bairro dos matadouros. Lá pelo menos estávamos quentes e podia-se ficar calmamente sentados. E, com sorte com um copo de uísque, que se enchia com calor, ruído e os camaradas, tudo aquilo que restava de esperança. Nesse ano e nessa véspera de natal então, estavamos sentados nesse bar que estava mais cheio que normal, e o whisky mais diluído que o costume e os fregueses ainda mais desesperados. É óbvio que nem o público nem o proprietário animavam para um clima festivo. (...)

Mas por volta das dez horas entraram três rapazes que – sabe-se lá como! - tinham alguns dólares no bolso e que convidavam para uma rodada geral, pois era apenas Natal e o sentimentalismo estava no ar. Cinco minutos depois, o lugar inteiro estava irreconhecível. (...)

Contudo, acho que devido à compulsão de presentear todos, incitou-se alguma irritação. Os doadores deste espírito de Natal não foram vistos de olhos amigáveis. Após o primeiro copo de uísque patrocinado, foi traçado um plano de verdadeira dádiva de presentes de Natal.

Uma vez que não abundavam artigos para usar como presentes, era mais lógico utilizar presentes adequados às pessoas e até com algum significado profundo, em vez de presentes de valor material.

Então, nós demos ao proprietário do bar um balde de neve suja da rua, para que o velho whisky pudesse durar – aguado e diluído – até ao ano novo. Ao empregado oferecemos uma lata velha de conserva, assim tinha pelo menos um recipiente de serviço decente. (...)

Estava entre nós um homem que se destacava entre nós pela negatividade, pois estávamos que tinha um grande ponto fraco. Todas as noites estava lá sentado e as pessoas percebiam e acreditavam com segurança que ele tinha uma forte e intransponível aversão a tudo o que tinha a ver com a polícia. Todo o mundo podia ver que ele não estva metido em bons lençois.

Para este homem, nós pensamos em algo muito especial. Rasgamos três páginas de um velho livro de endereços, onde figuravam os contactos de diversos postos da polícia, embrulhamos cuidadosamente numa folha de jornal e entregamos o pacote ao nosso homem.

Enquanto entregávamos o embrulho pairou um grande silêncio na sala. O homem hesitantemente pegou no presente e olhou para nós de soslaio com um sorriso ligeiramente amarelado. Apercebi-me como ele sentia o embrulho com os dedos, de forma a determinar o conteúdo ainda antes de o abrir. (...)

E então algo muito estranho ocorreu. O homem puxou no barbante que fechava o "presente", quando o seu olhar, aparentemente ausente, caiu sobre a folha do jornal que albergava as páginas do livro de endereços da polícia. De repente o seu olhar já não era ausente. Todo o seu corpo magro contorceu-se com o jornal, ele inclinou seu rosto para o fundo da folha, e leu. Nunca, nem antes nem depois, vi um homem ler assim. Ele simplesmente engolia o que leu. E então ele olhou para cima. E novamente eu nunca, nem antes nem depois, vi um olhar tão brilhante como o olhar deste homem.

"Acabei de ler no jornal", disse ele de pé com uma voz enferrujada dolorosamente quieta, contrastando com o ridículo do rosto radiante, "que todo o meu problema simplesmente fora resolvido há muito tempo. Toda a gente sabe, em Ohio, que eu não tenho nada a ver com o sucedido" E então ele ria-se.

Todos nós ficamos impressionados pela reacção do homem pois esperavamos outra, e quase todos perceberam que o homem tinha estado sob alguma acusação, e agora, tal como aquela folha de jornal o explicou, ele tinha sido absolvido. De repente eclodiram risos pelo bar, e esses risos partiam dos corações das pessoas, o que acabou por conceder um balanço positivo à nossa acção, esquecendo-se toda a amargura inicial, e vivemos um excelente Natal, que durou até de manhã, todos nós satisfeitos.

Nessa satisfação geral, é claro, não importou sequer que aquela folha de jornal libertadora não tivesse sido escolhida por nós, mas sim por Deus.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Diálogo 3

Anti-Profeta - Que achas daquilo que o Papa disse sobre o preservativo?
Profeta - Como é possível usar Papa e preservativo na mesma frase? Foda-se...
A.-P. - Não estou certo de que essa seja a linguagem mais apropriada, tendo em conta os nossos potenciais ledores...
P. - A mim ninguém me paga para ser liso.
A.-P. - Lido, queres tu dizer.
P. - Não. Liso.
A.-P. - Mas se nos dão acesso a esta tribuna, sempre podemos ser mais educados e...
P. - Estou a borrifar-me para isso!
A.-P. - Bem, ok. Mas que achas?
P. - Sobre o quê?
A.-P. - Sobre o que disse o Papa!
P. - Para mim era pegar nessa padralhada toda e...
A.-P. - 'Tou a ver que hoje não dá para falar contigo!
P. - Passa-me daí o entrecosto para pôr aqui na brasa.
A.-P. - ...
P. - Acho bem.
A.-P. - Achas bem o quê?
P. - O que disse o Papa.
A.-P. - ?
P. - Exactly, my looser friend.
A.-P. - Onde é que aprendeste inglês?
P. - States.
A.-P. - Achas bem? Ou tardio? Ou ainda pecando por defeito?
P. - Não. Ninguém pede a um carvalho para dar castanhas.
A.-P. - Não percebi.
P. - Não percebeste que és burro.
A.-P. - Pensava que, como contestatário de esquerda que és, que achavas, como muitos, que a posição do Vaticano sobre o preservativo - e tendo em conta a disseminação da Sida em África, em especial - era nada menos do que criminosa.
P. - Estou a ficar velho.
A.-P. - ...
P. - E desde que te aturo que envelheço mais.
A.-P. - Mas como assim?
P. - You're a pain in the ass.
A.-P. - Não! Como achas bem o que disse Bento XVI?
P. - A Igreja faz incidir a sua estratégia na abstinência; depois na fidelidade; e no fim no preservativo.
A.-P. - Acho que é a primeira vez que te ouço dizer estratégia sem ser a brincar.
P. - Lê o texto de novo.
A.-P. - Como?
P. - Esquece.
A.-P. - Não achas isso desfasado da realidade?
P. - Não.
A.-P. - ...
P. - Dar azo aos desejos carnais, dar azo sobretudo aos desejos, faz uma pessoa sumir-se como pó ao vento.
A.-P. - Isso é pouco revolucionário.
P. - Estás enganado my loser friend. Isso, hoje, é o que há de mais revolucionário.

FS

Um pote de Alcaçuz


Submergi os dedos em alcaçuz, pensando que a negritude acalmaria o fogo interior, que por essas horas lavrava amplos bosques.

Esperei que o excesso caísse, pingos espessos de alcaçuz líquido que tingiam de negro o meu colo e aguçavam os sentidos.

Ao me perder nas gotas, não senti que a terra continuava a arder. Só o poder olfactivo conseguiu raptar-me do mundo dos sonhos pois foi o cheiro do humo envolto em chamas que me agitou.

Afinal tinha estendido a mão ao pote errado e este licor era alcatrão com cheiro a raiz-doce. Alcatrão impostor que só serviu de acendalha para a combustão.


RB

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cemitério 1




eu pensava que era a predilecta
criação de deus na terra



e por isso acordava e adormecia
com a imortalidade no tempo perdido


em minhas encardidas mãos


mas entrei de manso e em silêncio
na cidade dos mortos



transposta a entrada
ali tudo é circular e sem pontos de fuga



[Fotos do Cemitério paroquial de Santo António da Serra]


DV, alias FS

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Juventudes Partidárias

Nova tertúlia pandoriana, desta vez dedicada à temática das juventudes partidárias: será que fazem sentido no mundo de hoje, qual a sua utilidade, será que subvertem a democracia?

Muitas perguntas, muitos gatos fabulosos e acima de tudo, muita troca de perspectivas. Enjoy.


3ª e última parte!

Porque fotos de grupo não são só para clubes de futebol...

sábado, 6 de novembro de 2010

O condutor

Nunca soneguei as náuseas que me causam as juventudes partidárias, coisa que se assemelha a uma fábrica de autómatos, cumprindo a distopia de Aldous Huxley. Mas há momentos em que a náusea quase ganha uma dimensão tangível. Anda por aí um pequeno burguês a adejar o estatuto de “Geração Madeira”. O pequeno burguês é candidato à liderança do apêndice “jovem” do PSD. O pequeno burguês não tem consciência de que, ao reivindicar o estatuto de “Geração Madeira”, está a vilipendiar todos os madeirenses que não se revêem num puto que não representa nada, nem ninguém. Mais: nunca leu Pessoa. Se o tivesse lido, saberia moderar a megalomania. Porque “conquistamos todo o Mundo antes de nos levantarmos da cama”. Depois, já seria bom se encarássemos o quotidiano com a ambição de combater a sina de “cadáveres adiados”.
O pequeno burguês, disto, nada sabe. Mas quer liderar. Mais do que liderar, quer guiar. Talvez por isso o seu rosto deambule pela Madeira, atrelado a um autocarro destinado a aprendizes de "pesados". Até aqui o pequeno burguês cometeu o pecado da megalomania. Não sabe guiar, e já quer assumir um “pesado”. Pequeno burguês, um recado de quem não te conhece, nem é teu amigo: vai devagar, rapaz. Começa pelos ligeiros. Se tiveres mãos, quem sabe... Olha, há dias fui ao kartódromo do Faial. É coisa fácil de se lidar. E que tal se começasses por um kart? Nem precisas de carta.
VS

domingo, 31 de outubro de 2010

Ele e Ela perdidos algures num Nós

A maneira metódica, quase robótica como ela preparava os legumes para o jantar enervava-o profundamente. Ficava sentado na mesa da cozinha enquanto ela cortava primeiro vertical e depois horizontalmente a cebola para depois ter cubinhos perfeitos. Seguia-se o pimento vermelho: descascado com precisão porque ela sempre dizia que a casca dificultava a digestão. Ela até conseguia impor ordem nas entranhas dele. O molho de bolonhesa não era mau, até bem condimentado num apartamento cujas paredes entretanto só conheciam as emoções de sal e pimenta. Ele sentia-se como espectador romano ao observar a maneira como as suas frustrações se digladiavam entre os coadores, a faca de serrote e a tábua de plástico.

Ao longo dos anos de matrimónio morno, o que tinha acontecido à espontaneidade daquela rapariga que lhe tinha causado tanto reboliço emocional e hormonal? Essa, pediu asilo político para fugir da nação repressora do casamento, deambulando num monte de burocracia, num serviço de estrangeiros e fronteiras qualquer.
O cabelo dela sempre fora um mensageiro silencioso da sua alma e a indolência e palidez actual que se estendiam pelos fios só davam continuidade à pequenez da sua chama feminina interior. São cabelos de velha, pensava ele.

Entretanto ela pressionava o canto do olho com a base da mão, realizando com ironia que só cebolas conseguiam soltar algum sentimento natural nela. Ela lembrava-se bem e com algum resquício de saudade, dos tempos em que ele bastava apanhar o faro dela no ar para persegui-la nos seus passos. Parecia que os tempos em que não estavam entrelaçados eram pausas suspensas de respiração, onde só um beijo lhes dava fôlego primordial. Ele aninhava-a nos seus braços, correndo tacteante o longo percurso desde a cova do joelho até à seda brilhante, junto ao mesmo balcão de cozinha onde hoje ela perdeu toda a atracção, como se tivessem sido desmagnetizados pelos deuses.

Nem ele nem ela conseguem apontar claramente o início do declínio da curva de Bell da sua paixão; foi um processo gradual e silencioso que os contagiou durante o sono profundo. Talvez fosse pela ausência da desejada criança, sem o balde de argamassa para o nós. Talvez pelo efeito cronométrico nos corpos e nos espíritos. Mas enquanto ela preparava o jantar e ele a observava ficou claro: de paixão tinham passado para um entendimento, um pacto de convivência pacífica, sem intermédios. Sem zangas até, como se o amor nunca lá tivesse residido entre eles. Porque o único habitante de um nós é o amor entre ele e ela. Perceberam afinal que a paixão é um dom de tempo limitado que depois de expirar tem que ser emprestado a outros eles, a outras elas, a outros nós.

RB

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manuel Alegre na Caixa de Pandora

Entrevista exclusiva de Manuel Alegre, candidato à Presidência da República Portuguesa, à Caixa de Pandora





sábado, 23 de outubro de 2010

Nuno Melo, Entrevista

Primeira parte da nossa entrevista ao Eurodeputado Nuno Melo aquando da sua participação nos Study Days do PPE - falamos da colaboração partidária no PPE, multiculturalismo na Europa e as comemorações da República Portuguesa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

República vs Monarquia

Caixa de Pandora no Directo Europa, 88.8fm, do passado dia 09/10/10. Tema: República vs Monarquia, com Vitor Sousa, João Canha e Tiago Freitas.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

i love the simple joys



i love the simple joys

letting my toes
soak in the grass
and plasticine mud.

picking green beans
from their mother stalks
and getting spanish needles
all over me.

breathing in the rain,
exhaling softly the pain.
releasing the thunder from my soul.

glazing over the sunday paper
sipping black coffee
as the sun warms my back
in the lazy lazy sunday hours.

summersaults in the sea,
empowering chocolate teeth,
eating artichockes with green tea.

Oh, how do i love the simple joys.

RB 02/2006, revisto hoje.

Depois da Fome, o Prémio


O Parlamento Europeu tomou a decisão que se impunha, atribuindo o Sakharov deste ano ao dissidente Cubano Guillermo Fariñas. Se juntarmos mais algumas pressão internacional, mais as recentes e anormalmente lúcidas declarações de Fidel, acrescentando a abertura da administração Obama para um aliviar do embargo em troca de uma progressiva mudança constitucional, poderemos estar à beira de encontrar a solução para a "Palestina das Caraíbas". Ou seja, um regime insuportável, que desrespeita os preceitos fundamentais da liberdade, democracia e direitos Humanos, mas cujo embargo do seu vizinho democrático serve de arma de arremesso contra este último e todos aqueles que defendem o Estado de Direito, como que legitimando as más práticas vigentes na ditadura a quem se quer enfraquecer. NO MORE EXCUSES!(para que não hajam dúvidas, o Fariñas é o tipo da direita)


TF

domingo, 17 de outubro de 2010

Entrevista: Comissária Europeia Georgieva

A Caixa de Pandora entrevistou a Comissária Europeia Kristalina Georgieva, responsável pelas áreas de Cooperação Internacional, Ajuda Humanitária e Resposta a Situações de Crise. A Comissária Georgieva encontrou-se na Madeira por ocasião dos Study Days do PPE e disponibilizou-se a responder a algumas perguntas da Caixa, conversando sobre as prioridades de ajudas comunitárias em catástrofes naturais, a capacidade europeia em apoiar internacionalmente, e o factor transparência nas ajudas humanitárias.


RB/TF

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Lágrimas

No dia em que Atacama - normalmente conhecido como o sítio mais árido do planeta - ficou alagado com o choro do mundo e se tornou o centro emocional de toda a humanidade, pensei que afinal não está tudo perdido...
Afinal a secura era só por falta de causas comuns e por exageros de telenovelas que plastificam o sentir. Não, a humanidade está viva, e espelha-se nos mineiros que procuram a luz e aos poucos, lenta, lentamente são paridos pela segunda vez para uma brilhante nova humanidade.
Vamos em 10 novos homens, faltam os outros que continuam na sua escuridão do ventre da terra. E o que pensarão ao longo daqueles 624m de percurso de limbo entre estes mundos surreais?
Pode ser que este novo sentir de humanidade interligada seja curto, e não duvido que em breve sejamos novamente escravos de reality tv barata quando venderem os direitos desta 'história' a revistas e estúdios.
Mas neste preciso instante a acendalha da empatia e do amor circum-navega o mundo, e eu apanhei uma faísca.

RB

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Jägermeister, um experimental (mudado para português)

Eram dez pequenos caçadores. Mas estes dez, ao contrário dos originais, não foram criados para o prazer - nem charros, nem álcool, nem sarça ardente.
Não: cada um era mais possante e grisalho que o outro. A voz a plenos pulmões, cheios de ar velho e podre. Mais velho do que tu, do que eu e do que os restantes franco-atiradores. Num tempo antes do tempo - ou possivelmente antes do tempo em que eram jovens - devoraram o tédio e a fome ao ritmo de um relógio de cuco.
Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Toc, toc. Tic, toc.
Fossem ainda crocodilos e seriam, pelo menos, em firme chão, rápidos. Se, porém, tudo estivesse calmo por um segundo, então ouviríamos o miserável relógio de cuco. Mas, tornando-se estes caçadores tão escorregadios, tediosos e transparentes, esvaiu-se o nosso conforto.
São hoje como algas descoloradas, eximindo-se do seu papel de bóias de sinalização, num lago onde já não nada vivalma, nem se pratica nudismo de corpos rosados. Os Toten Hosen [Calças Mortas] cantavam que "Um dia todos têm que partir, mesmo se o teu coração quebrar. Mas o mundo não afunda, ó Ser Humano não te enerves!"
Será que existiram verdadeiramente estes 10 liliputianos? É difícil, tão difícil, distingui-los; talvez sejam 6 mil milhões de pequenos caçadores...

Mudado para português por RB e FS

Jägermeister, um experimental

Es waren einmal zehn kleine Jägermeister. Sie waren aber nicht für Freude erschaffen; keine joints, kein alkohol, kein Lagerfeuer. Nein, einer fetter und grauer als der andere. Die Backen vollgeblasen, mit alter Luft. Älter als du und ich und älter als sie selbst. In einer Zeit vor der Zeit - oder sogar vielleicht als sie mal jünger waren - haben sie vor lauter Langeweile und Hunger eine Kukuksuhr geschluckt, alle zehn.
Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Tic, toc. Toc, toc. Tic, toc.
Wären sie doch noch Krokodile, dann wären sie wenigstens wendig, geschliffen und schnell. Wenn aber, für eine Sekunde, alles ruhig wäre, dann würde mann trotzdem die elende Kukuksuhr hören. Da aber die Jägermeister so lahm, öde und durchsichtig sind, haben wir gar kein Trost-faktor. Sie sind wie alte, algenreiche, Bojen die auf einem nichtssagendem See treiben, wo niemand schwimmt, geschweige denn noch FKK übt.
Die Toten Hosen singten schon "Einmal muss jeder gehn, und wenn dein Herz zerbricht. Davon wird die Welt nicht untergehen, Mensch ärger dich nicht".
Aber waren es wirklich zehn dieser "Ödemeister"? Es ist doch so schwer sie untersich zu unterscheiden; vielleicht sind es doch nur 6 milliarden kleine Jägermeister...

RB

Croniqueta 1

Dispersão é o signo do nosso tempo (Egocentrismo é o outro signo, mas essas são outras contas de um outro rosário.)
Afinal, as opções abriram-se, como nunca na História. E a escolha cumpre, urge e persegue-nos – em tudo. As ansiedades, patológicas ou não, que nos assolam, têm por esteio axial a angústia em arrostar uma escolha entre duas, três, muitas opções – nas relações interpessoais, nas coisas materiais.
Porque já não há costumes e já não há normas sociais. (Claro que há; não posso porém estar, em constante instância, a inserir variáveis no discurso; esquematizemos a realidade para que possamos falar dela.) As nossas opções não são as dos nossos avoengos. Dispersamo-nos hoje entre amigos, virtuais sobretudo, e reais; entre sentimentos e paixões e amores; entre escolhas de opções profissionais e educacionais; entre múltiplas formas de ocupar o tempo em que estamos mortos – e muitos vêem-se deambular, como eu, entre sites, blogues, vídeos do youtube, e por aí adiante.
O mundo abriu-se e nós devolvemos medo, dormência, tédio, insónia, adiamento, dispersão. Na senda pois de mantermos opções em aberto, nada escolhemos e tudo coleccionamos – experiências; avanços; retrocessos; impasses; limites; ideologias; palavras – como troféus enrodilhados num fio de memória que apresentaremos, orgulhosos, aos nossos semelhantes. E assim fazemos para calar o silêncio incómodo que não suportamos e para escapar do verdadeiro afinco em tomar um trilho decidido – onde não cheguem os estilhaços de surdas explosões de som, de informação e de imagem ou, chegando, não nos façam divergir.
De modo que nada nos define. Não somos crentes nem descrentes. Não somos simples nem complexos. Não sabemos algo nem o seu contrário. Não fazemos isto sem fazer aqueloutro.
Arcamos com uma opressão que muitos não sentem; além disso, sobre nós paira a impostura de sermos o tempo da transição – ou de inaugurarmos o tempo da constante transição – e, sobretudo, de termos de explicá-lo (a este tempo) aos vindouros; de o explicar e de justificar as nossas irresoluções. Quem compreende? Quem compreenderá?

FS

domingo, 10 de outubro de 2010

Poema Político 1

o socialista
exige 3 redes
sob a vertigem

o libertário
garante a tensão
da corda-bamba

o primeiro é herói
ao cair

o segundo é besta
ao ficar


DV, alias FS

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Strings





«I guess it's OK to pull somebody's strings once in a while; good things will happen».
Profeta
(na sua fase operária e americana)

FS

Ursinhos e a República

Uma primeira tentativa de multimédia animada. Este vai em inglês porque só depois de ter feito o script é que descobri que existem vozes portuguesas no software...

RB

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Paliativo (2)

Não tinha memória dos dias em que o queixo não tocava o peito. Um desvio na coluna foi-lhe diagnosticado por um osteopata new age que queimava velas no consultório. O perito decidiu da necessidade de massagens e sessões de reiki; e aconselhou ainda: "O Senhor deve evitar olhar sempre o chão e andar com esses pesos mortos debaixo de cada braço". Em chegando a casa, deitou no lixo o que sempre transportou desde a adolescência: O Capital e um busto de Afonso Costa.

FS

Paliativo

Desde há muito que "sair de cabeça erguida" se transformara num estribilho. Perseguiam-lhe dores na coluna. Um dia, recorreu a um especialista. Saiu do consultório curvado ao peso de uma vida desfeita. "O senhor deve evitar determinados movimentos. Genuflectir, por exemplo", aconselhou o médico. Nesse mesmo dia, quando chegou a casa, removeu tudo o que, desde criança, contribuíra para moldar a sua identidade: um retrato do Rei e um crucifixo. Deixou de ser monárquico e temente a Deus.

VS

Congo, o preço da nossa passividade


Num post recente o Vitor fez uma breve menção às milhares de vidas brutalmente assasinadas no Congo, que não conseguem acordar o sentido de empatia do resto do Mundo.

Costuma-se dizer que a falta de intervenção militar externa se deve ao país alvo não deter riquezas estratégicas. A esperteza saloia costuma afirmar "Ah, mas se eles tivessem gás natural, a história era outra". Mas no caso do Congo, é precisamente o contrário. Parece que o território mais fértil do mundo e o solo mais rico está condenado a um feitiço macabro que perdura há séculos: primeiro com as atrocidades bárbaras cometidas pelo rei belga Leopoldo que criou o seu "Estado Livre do Congo", depois através do colonialismo belga, seguiu-se a crise desencadeada pelos movimentos nacionalistas e as suas guerrilhas internas, a ditadura de Mobutu, a 1ª e a 2ª Guerra do Congo, cujos confrontos ainda não terminaram. Contabilizam-se já 6 milhões de mortos, o que torna este conflito o mais sangrento desde a 2ª Guerra Mundial.

O Congo é o único país onde se assiste diariamente a um retrocesso em termos de conquistas humanas: seja nos direitos humanos seja nas condições materiais e de infra-estruturas. É o único país onde os avós podem dizer aos seus netos, que o Congo da sua juventude era mais desenvolvido que o actual. É um rewind assustador. Este site dos MSF pretende dar voz às pessoas do Leste do Congo, que assim deixam o seu testemunho sobre a guerra, a sobrevivência e o desejo de paz nesta região tão devastada pela violência, onde direitos humanos são um luxo do passado.

Quero apontar para algo que torna a violência do Congo tão sui generis: a utilização da violência sexual contra mulheres como arma de guerra e terror. Hillary Clinton apontou os holofotes mediáticos para esta chaga em 2009 quando visitou o Congo, e este ano Margot Wallström tomou posse enquanto representante especial da ONU para a violência sexual nos conflitos, mas uma reportagem do NY Times de hoje demonstra que ainda falta muito para chegarmos sequer perto de uma resolução.

A título de exemplo, na província do Kivu Sul, uma mulher é violada cada duas horas e as idades das vítimas variam entre os 2 e os 80. O Hospital Panzi em Bukavu presta um serviço essencial a vitimas de violações, fazendo 3600 operações gratuitas para reparar fístulas, que é uma condição causada por violações tão horríficas que as mulheres deixam de ter controlo da urina e das fezes. Mas o ginecologista chefe do serviço chega a desesperar porque o número de mulheres que regressam ao seu consultório é cada vez maior. Mas ele não desiste. Isso é o que o mundo faz.

Desliga-se a empatia com as vítimas destas barbaridades - mas porquê? Afasta-se o olhar do mundo porque é a vandalização de vaginas e porque é em África. É esta a triste e avalassadora realidade da matéria.

Qual é o meu desejo? Que a globalização não sirva só para termos um McDonalds em cada cidade do planeta, mas que antes sirva para positivamente acordar e abanar uma verdadeira consciencialização mundial sobre a dignidade humana que deve ser respeitada em todos os cantos do mundo.

RB

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Depois do terror: por que sobrevive o comunismo em Democracia? (2)

Os alvores dos anos 90 assistiram ao colapso do último totalitarismo no poder. Apesar de erradicados do poder, as democracias parlamentares ocidentais coexistem com partidos legatários de ideologias totalitárias, os quais garantem, inclusive, regressos intermitentes ao poder, infiltrados em coligações. A principal peculiaridade atinente à sobrevivência, em democracia, da ideologia totalitária decorre do modo como a extrema-direita e a extrema-esquerda se adaptaram à nova conjuntura. Enquanto que a extrema-direita se camufla, abdicando de símbolos icónicos que identificam o terror do século passado, a extrema-esquerda, representada pelo comunismo, nunca necessitou de renunciar às suas idiossincrasias. Por toda a Europa, os Partidos Comunistas (PC’s) continuam a brandir símbolos que Estaline empunhou, mantendo-se impoluta a logorreia que os feitores da URSS propagavam. Nas festas portuguesas do AVANTE, com regularidade, surgem efígies de Estaline, em bandeiras ou em camisolas, particularidade que pouco mais merece do que uma breve alusão nos jornais. Não há um repúdio abrangente, como se verificaria se a extrema-direita exibisse a suástica ou o rosto de Hitler. O regresso, furtivo ou ostensivo, de Estaline reflecte a complacência de que continuam a fruir o comunismo e o seu principal carniceiro.

A persistência do comunismo em contextos democráticos poderá derivar do “universalismo” filosófico que subjaz ao movimento político, forjado por Marx e Engels, com antecedentes literários na Utopia, de Thomas More. Na verdade, entre muitas similitudes, há uma clivagem de índole filosófica que separa o comunismo do nazismo. Essa clivagem só poderia ser mitigada, ou abolida, se consideramos “Mein Kampf” uma obra filosófica, o que não me parece verosímil… Se a orfandade de “universalismo”, que “vitima” o nazismo, pode explicar a sua irreversível estigmatização, a naturalidade com que o comunismo se adaptou à democracia, depois das hecatombes soviética e sínica, poderá ser justificada por esse substrato filosófico intemporal. Como enfatiza Anne Appleubam, no seu galardoado Gulag, uma História, o comunismo, de raiz sociológico/filosófica, continua a ser escudado por quem reitera a avaliação de que a URSS simboliza “o bem deformado”. Ken Livingstone, ex-deputado da Câmara dos Comuns e presidente da Câmara de Londres, foi um dos arautos dessa distinção. Conquanto possamos destrinçar na raiz filosófica do comunismo um projecto para a Humanidade munido de algum altruísmo e filantropia, o seu determinismo histórico profetiza o confronto e a abrupta eliminação de classes. Entre o universalismo comunista e o pragmatismo nazi, a eliminação, velada ou límpida, é um elemento distintivo. Mesmo recordando esta pulsão convulsiva, inextrincável do marxismo histórico, não acredito que Marx avalizasse o regime que Estaline edificou, pelo que não cuspo n' O Capital como cuspo no Mein Kampf. Mas cuspo, sem titubear, em Hitler e em Estaline.
Álvaro Cunhal, como um dos últimos grandes comunistas, morreu sem protagonizar uma única assunção, plena e cristalina, da malignidade intrínseca à União Soviética. Muitos outros comunistas, apesar de serem irrefutáveis as atrocidades perpetradas pela URSS, evitam discussões acerca desse paraíso terrestre inquinado, e, quando as aprovam, recusam declarar o seu inamovível repúdio. No máximo, e depois de um esforço ciclópico, emitem uma falsa censura: “A URSS representa o bem deformado”. Em nome da prossecução de um ideal, muitos dos comunistas democráticos contemporâneos aprovariam, creio, as políticas de Estaline, se naquela época tivessem vivido. Por isso, hoje, é de soslaio que observo as actividades políticas comunistas, enquanto adejam símbolos que representaram, para milhões, o calvário. Esmagados por machados e ceifados pela morte.
VS

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Depois do terror: por que sobrevive o comunismo em Democracia? (1)


Há alguns dias, cruzei-me com uma caracterização inverosímil do fascismo português. Alguém rotulava de “light” o Estado Novo, regime assente numa das ramificações do totalitarismo genealógico do século XX. A avaliação decorria de uma análise quantitativa das perdas humanas originadas pela acção repressiva do Estado Novo, em comparação com os fascismos alheios, de matizes espanhol e italiano, e com o “mal absoluto” nazi. Apesar de, no plano quantitativo, se exibir Hitler como o grande carniceiro da “direita totalitária”, Estaline tem razão quando definiu uma morte como uma “tragédia”. Mas quando infligida pelas mordaças asfixiantes de um Estado, a tragédia reveste-se de torpeza irremissível, pelo que a aparente filantropia de Estaline sucumbe à sua eterna condição de assassino ávido. A banalização do mal converte, efectivamente, a “tragédia” em estatística, solidificando os alvores do século XXI esta relação. No Congo ou no Darfur, no Ruanda ou na Libéria, a adição de 10 mil mortes a uma contabilidade macabra não provoca um inelutável acréscimo de dor no observador longínquo. O Homem urbano do século XXI acomodou-se aos relatos de chacinas, difundidos pelos jornais nos interstícios das páginas “internacionais”.

Só uma degeneração da essência humana permite que a asserção de Estaline exiba pertinência. Todavia, no intuito de aplacar a gangrena, torna-se imperioso repudiar qualquer Estado responsável por mortes, derivadas de actividades persecutórias ilegítimas. Não há, por isso, “fascismos light”, mesmo que o Estado Novo estivesse vinculado, “somente”, a uma morte.

A recente notoriedade que a extrema-direita, em Portugal, conquistou coage o Homem com memória a recordar os seus antecessores ideológicos. Entre os totalitarismos de direita, o nazismo foi o seu derivado mais fugaz e letal, definido como o “mal absoluto” pelas precursoras abordagens da vida e da morte. Apesar de o comunismo soviético ter aniquilado mais vidas – em mais de 70 anos de vida –, a industrialização da morte confere ao nazismo uma particularidade que o comunismo nunca tentou decalcar. Na União Soviética, durante os ominosos anos da Grande Fome, milhões sucumbiram à inanição, desenlace cujas responsabilidades devem ser atribuídas a um conluio entre a malignidade humana e a voracidade do tempo. Na Alemanha nazi, pelo contrário, a actividade humana foi a única responsável pelo extermínio. Tzvetan Todorov, em Memória do Mal, Tentação do Bem, escreve: “Se é certo que as classes inimigas devem ser eliminadas, essa tarefa caberá essencialmente à história e à natureza (a tundra gelada da Sibéria). Os nazis põem em prática o mesmo desprezo pela vida nos campos de concentração ou na exploração dos trabalhos forçados; porém, nos campos de extermínio, a morte transforma-se num fim em si mesmo. Nesta perspectiva, cada um dos dois regimes conserva a sua especificidade, apesar da semelhança dos seus programas”.
(continua)
VS

Portugal, ein Schrecken ohne Ende

Apesar de não me considerar beata (aliás, será que o habitat natural do termo 'beato' se circunscreve ao catolicismo mediterrânico?) aprecio muito os escritos de João César das Neves. Hoje ele publicou um interessante post relativo às medidas de austeridade anunciadas ontem por José Sócrates. Defende a entrada do FMI na gestão pública de Portugal enquanto "bomba atómica" que sanearia o sistema putrefacto dos dinheiros públicos.
De facto não podemos ficar pelos cortes e pelas costuras orçamentais; temos que ir além. Além da subida de IVA. Além dos cortes no abono familiar. Além das subidas nas contribuições à ADSE e CGA. Porque estas medidas só têm por objectivo sobreviver o dia de amanhã em termos da maquinaria estatal. Mas nós temos que projectar-nos no futuro e a longo-prazo, estratégia para o qual é inevitável o efeito 'tabula rasa' no sistema sócio-económico-político português.
Em alemão existe uma expressão que sigo à letra: lieber ein Ende mit Schrecken, als ein Schrecken ohne Ende (trad: é melhor um fim terrível do que um terror sem fim). Temos que acabar com todas as benesses que a função pública tem acumulado ao longo das décadas que mais não fazem que cimentar estruturas imóveis, pesadas e lentas. É preciso morder o cabedal, olhar em frente e seguir com um modelo de reestruturação da coisa pública.
Falo de subsídios, por exemplo, que, pela sua natureza não são tributáveis. Qual é a lógica de pagar subsídios de imagem a assessores e afins? E os subsídios de representação quando o funcionário não se ausenta do serviço?
Mas não é só nos funcionários públicos que temos que analisar a fundo os gastos. Só se pode pedir a um povo que arregace as mangas e aperte os cordões da bolsa se os exemplos de cima são espelhados nessas medidas de austeridade. Certamente que casos como a sra deputada Inês de Medeiros nada fazem para credibilizar a gestão de fundos públicos nas nossas instituições.
Temos que ter políticos com a coragem da candidata dos Verdes nas Presidenciais Brasileiras, Marina Silva, por exemplo, que quando foi eleita vereadora de Rio Branco devolveu o dinheiro de gratificações, auxílio-moradia e outras mordomias que os demais vereadores recebiam sem questionamento.
Temos que enfrentar esta crise como a oportunidade para finalmente criar um sistema político e estatal do qual os portugueses se podem orgulhar. Quando exclamaremos "Portugal est mort. Vive le Portugal!"?

RB

Na razão está a solução?


O 1º Ministro anunciou hoje a um abatido Portugal medidas de austeriade(grande ou pequena depende do analista, e do modelo de sociedade e de economia que preconiza)que prometem mudar a vida dos portugueses nos próximos...anos.Umas das raízes do problema tem certamente a ver com o início da crise internacional. Mas não pelas razões que «Sócrates e sus muchachos» advogam. O Governo, a reboque de alguns Nóbel de sala de aula(hello economia real!!!), e de uma opinião pública e publicada inculta e papagaia, chegou à brilhante conclusão que a solução para a recuperação da crise (ainda que a nossa fosse, na altura, distinta da Internacional) seria «injectar dinheiro na economia». Era Keynes que ressuscitava! Pois bem, o défice das contas públicas mais que quadruplicou ajudado, sejamos justos, por uma diminuição das exportações e do turismo (agravando o défice da balança comercial) decorrente da própria crise, e por razões essencialmente exógenas. Ninguém fala dessa "injecção" de dinheiro, para onde foi, para que serviu, o que salvou, e de que forma passou de conjuntural para estrutural. è que tenho dificuldade de acreditar no sobrenatural, principalmente no que se refere a humanidades como a economia. Ainda não vi ninguém falar, debater, escalpelizar este ponto. Pode ser um bom princípio...


TF

Nota: O FMI não vêm aí..já cá está. Chama-se "Conselho Europeu" (e também "EcoFin"). Sempre que se aproxima um... lá vem bomba!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Venus ...Ontem, Hoje e Sempre?

Já repararam que este vídeo, tendo mais de 40 anos, poderia ter sido feito na semana passada? Os instrumentos são iguais aos que se utilizam hoje, as roupas idem(até porque o "retro" está na moda) e a sonoriade não é datada, é perfeitamente contemporânea. Imaginem agora 20 anos antes deste video. Ele não poderia ter sido feito em 1949!Muito menos em 1929(40 anos, a mesma que nos separa). Na era da maior evolução tecnológica da História estagnámos culturalmente? Ou apenas conseguimos a vitória de não deixar o que é bom para trás(esquecido)?

TF

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mulheres, Armas e Heranças


Existem pessoas que quando de repente ganham uma herança familiar e pouco habituados a gerir dinheiro, gastam tudo em rodadas na tasca, máquinas no casino e em patuscadas com os amigos. Esquecem-se que a herança é a acumulação de trabalho e suor passado, que deve servir para construir algo melhor para as gerações seguintes.

Ora bem, perguntar-me-ão para que serve esta metáfora?

O Dia de Defesa Nacional arrancou ontem pelo país fora, com o intuito de aproximar as Forças Armadas dos jovens, com a particularidade de ser o primeiro ano em que passa a ser obrigatório também a presença das raparigas. É uma grande operação charme para melhorar as taxas de ingresso nas Forças Armadas: a predisposição de ingressar nas FA caiu de 52,8% (2007) para 38,9% (2009), de acordo com um estudo de Luís Baptista da Universidade Nova de Lisboa. Procurando a integração das mulheres nas FA, Portugal consegue hoje em dia ostentar o 4º lugar no ranking da NATO de maior participação de mulheres nas FA.

Tudo isto é motivo de celebração, na minha opinião. Um dos bastiões das masculinidade - a defesa - está aos poucos a se abrir às mulheres, para assim as FAs desempenharem um papel pro-activo na defesa da igualdade do género. E 'ponto final'.

Contudo, como a defesa de certos feminismos infelizmente se encontra sequestrada por uma esquerda esquizofrénica, qual é a reacção da UMAR, "União de Mulheres Alternativa e Resposta"? A UMAR discorda da necessidade de "haver um dia de defesa nacional com obrigatoriedade, coimas altíssimas e interdição de candidatura à função pública" em caso de não comparência. "É algo que não faz sentido quando a República não está em perigo, devia ser substituído por um dia com outros valores que não os belicistas", acrescentou a dirigente Manuela Gois.

É no mínimo ridículo, e no máximo pode ser contraproducente. Em vez de utilizar o legado do feminismo de maneira positiva, para criar equilíbrio entre os géneros, procura impor dogmaticamente a sua lógica esquerdista, e pior - ousando falar em nome de todas as mulheres portuguesas. É neste sentido que temos que olhar para heranças com responsabilidade e com credibilidade para que qualquer projecto possa ter futuro.

Questionar a legitimidade das FAs no actual cenário mundial ditado pela incerteza é altamente perigoso e só demonstra a agenda política que se esconde por detrás desta ONG, olhando só a conquistas e negligenciando os necessários deveres que acompanham todos os direitos.

Não me deixo representar assim enquanto mulher e até tenho pena de hoje não ter 18 anos para assim poder participar nas actividades do Dia de Defesa Nacional.

RB

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Economia, Neoliberalismo e Cartas Abertas

Esta carta aberta a Mario Crespo, a propósito do programa "Plano Inclinado", é curiosíssima. O autor, Jorge Bateira, economista, insurge-se contra o facto de o referido programa alegadamente “ofende[r] o direito dos cidadãos portugueses a uma informação plural e rigorosa”. E porquê? Porque os comentadores que botam faladura no programa “representam apenas um segmento de opinião”. E, supremo topete, que segmento é? É o funesto espírito que anima os demónios da contemporaneidade: o neoliberalismo ou a “pura ideologia neoliberal” (recomendo rasgar as vestes quando se ler ou entoar tal expressão; eu tentei e senti-me bem).
Eu proponho o seguinte: que se obrigue – aliás, Jorge Bateira entende que só “resta apelar para a entidade reguladora da comunicação social” se Mário Crespo “não qu[iz]er fazer um programa em que o pluralismo de análise económica e de políticas seja real” – o jornalista da SIC a incluir: um economista neoliberal; um dito estatista; um dito marxista; um dito defensor da economia clássica; um dito libertário; um dito anarquista; um dito fascista; um dito jardineiro nas horas vagas; um dito leitor de banda-desenhada da Marvel; etc. Afinal, que mundivisões fulcrais para a nossa percepção dos dias que passam não terão tais supostos especialistas nas vertentes dessa “ciência”? E, pugnando nesse sentido, digo com Jorge Bateira: basta!
Bem, devo afirmar que sei pouco acerca desse conceito que muito anda nas penas e nas bocas dos homens pensantes da actualidade. Julgo, porém, que o mesmo assume uma conotação assaz pejorativa – muito mais uma arma de arremesso ou insulto ou, ainda, de amplificador de indignação contra a “exploração do homem pelo homem”.
A questão é a da liberdade de uma estação televisiva, privada, expressa num programa dinamizado por um jornalista que tem as suas simpatias e ideologias consabidas – e que entende dar-lhe a forma que bem entende. Expressões como: “pura propaganda ideológica” e “manipula[ção] da opinião pública usando um bem público” deixam-me atónito. Se assim é, todos os comentadores e “opinion makers”, mais ou menos estatistas ou mais ou menos liberais, pelo simples facto de emitirem as suas opiniões, em meios de comunicação social, são propagandistas e manipuladores. E há-os, de várias cores e em várias tribunas.
Resta escolher.

FS

sábado, 18 de setembro de 2010

3 Verdades com 5 anos(ou Vidência pt. I).


Por Volta de Abril de 2005, pouco tempo depois de Sócrates ter ganho as eleições a Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite(insuspeita de ser chamada de Santanista-ou Santanette) desmentia 3 dos baluartes eleitorais (que é como quem diz "promessas") do então novo líder Governativo. E à época nem imaginava que voltaria à política, tempos antes de ser forçada a ocupar o vazio deixado por L.F. Menezes. Taxativamente a dama de ferro clamava: « As Scuts vão passar a ser pagas (logo deixarão de ser Scuts), o Aeroporto e o TGV serão cancelados e o Governo vai aumentar impostos. Sócrates pode dizer o que quiser, mas não há dinheiro, qualquer cenário diferente é irrealista e não terá a anuência da CE». Mais coisa menos coisa, e relembrado de cabeça, foi isto que a mulher mais odiada do País disse. Depois de mais um puxão de orelhas em sede de Conselho Europeu, a seguir ao qual (e uma vez mais) Sócrates é obrigado pelos seus pares Europeus a deixar cair uma das suas utópicas bandeiras. Desta vez o TGV. Manuela, Tal como Medina Carreira, Ernani Lopes e outros não são, nem podem ser, o futuro do País. De resto até é irritante a forma cheia de soberba como falam das novas gerações e do futuro da Nação. O seu conservadorismo causa desconforto, e faz lembrar tempos que muitos não viveram. O pior é que provavelmente têm razão.
TF

País a Azul e Vermelho


Há 2 anos atrás preparava-me para umas férias em Itália. Conheceria nessa altura a "Cidade Eterna," Roma, a então "Cidade do Lixo", Nápoles (sempre é´melhor que o epíteto "Cidade Camorra") e ainda a fantástica «Scavi» de Pompeia. Confesso que a visão do Vesúvio me trouxe lembranças da minha amiga de infância Maga Patalógica. Além disso a minha relação com as Piz(z)as, nomeadamente as feitas na Madeira ficou profundamente alterada. Piz(z)as é como se faz em Itália e não se fala mais nisso. Contudo o que mais me fascinou foi a profunda cisão na sociedade Romana, e Italiana em geral, entre azuis e vermelhos. Ali não há meias tintas, ou se é bem à direita ou bem à esquerda. O Centrão, esse objecto híbrido, estranho e de valências várias ,de que nós somos especialistas, parece ser residual no País de Victor Emanuel. Há zonas na cidade claramente dos azuis, outras dos vermelhos. Quando precisei de ir à Esposizione Universali di Roma(EUR), bairro construido para albergar uma mostra do Império de Mussolini em 1942 (assim ao jeito da Exposição do Mundo Português), questionei algumas pessoas na rua acerca da sua localização. Percebia de imediato quem era "azul" e quem era "vermelho". Os primeiros diziam-no por extenso, e com a boca cheia de orgulho. Os segundos limitavam-se à sigla, já de si alterada do original "E42", com um olhar desconfiado ao estilo « mas que raio vai este tipo fazer àquela zona proibida?». Mesmo no Desporto as coisas são bem claras. Cada uma das Grandes cidades tem um Clube Azul (Nápoles, Inter,Lázio,Bréscia, Juventus - esta apesar de não equipar com a dita cor) e uma Vermelha(Milan, Roma, Torino, Réggiana, Livorno). Símbolos maiores dessa "luta" serão os avançados Lucarelli, do Livorno, que comemora os Golos com o punho esquerdo fechado, e Paolo di Canio, ex-Lázio, que comemorou algumas vezes com o braço direito estendido da saudação Fascista. De resto este último chegou a ser suspenso por efectuar este gesto(meses depois de ter ganho prémio fair-play da FIFA por ter atirado para fora a bola quando, a centimetros da linha de golo, percebeu o guarda-redes adversário lesionado), o que nunca aconteceu ao seu adversário comunista. Por fim a política: sabe-se que a itália tem um nível médio de administração pública de excelência,o que permitiu que o País prosperasse nos anos 80 e 90, quando os governos duravam uma média de 4-6 meses. Além disso a economia é verdadeiramente privada, competitiva, com empresas de referência verdadeiramente capitalizadas, em sectores vitais nas sociedades modernas como os transportes e a energia. Num País em que Gianfranco Finni já é visto como um moderado percebe-se a dimensão da "coisa". Berlusconi, apesar da imagem boçal que sustenta, teve(tem) o mérito de ter estabilizado um modelo governativo que parecia destinado à instabilidade constante. E personifica o que metade dos italianos também glorifica: o sucesso pessoal e empresarial, e a clareza de posições. Estranho é que um indivíduo com o perfil do ex-Presidente da CE Romano Prodi tenha sido duas (!!!!) vezes 1ºMinistro, cada uma das quais por cerca de dois anos. É que Prodi, nas suas meias tintas e preocupação excessiva com o politicamente correcto, introduziu uma nova cor, efémera, na cultura Italiana: o cinzento!
TF

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Porque os cemitérios são depositários de histórias e sonhos


"Cemetery Ride", Billy Collins







"My new copper-colored bicycle
is looking pretty fine under a blue sky
as I pedal along a sandy path
in the Palm Cemetery here in Florida,

wheeling past the headstones of the Lyons,
the Campbells, the Vesers, and the Davenports,
Arthur and Ethel, who outlived him by eleven years
I slow down even more to notice,

but not so much as to fall sideways on the ground.
And here's a guy named Happy Grant
next to his wife Jean in their endless bed.
Annie Sue Simms is right there and sounds

a lot more fun than Theodosia S. Hawley.
And good afternoon, Emily Polasek,
and to you too, George and Jane Cooper,
facing each other in profile, two sides of a coin.

I wish I could take you all for a ride
in my wire basket on this glorious April day,
not a thing as simple as your name, Bill Smith,
even trickier than Clarence Augustus Coddington.

Then how about just you, Bernice Owens?
Would you gather up your volumious skirts
then ride sidesaddle on the crossbar
and tell me what happened between 1863 and 1931?

I'll even let you ring the silver bell.
But if you're not ready, I can always ask
Amanda Collier to rise from her long sleep
beneath the swaying gray beards of Spanhish moss

and ride with me along these sandy paths
so I can listen to her strange laughter
as some crows flap in the blue overhead
and the spokes of my wheels catch the dazzling sun. "




partilhado por RB

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Diálogo 2

Anti-Profeta - Posso ler-te uma coisa?
Profeta - Sim, mas despacha-te.
A.-P. - "Ele, Agilulfo, tinha sempre necessidade de sentir perante si as coisas como um espesso muro, ao qual contrapunha a força da sua vontade. Só assim conseguia manter uma segura consciência de si mesmo."*
P. - Bem-vindo.
A.-P. - Bem-vindo?
P. - Bem-vindo aos tempos modernos.
A.-P. - A obra foi publicada, inicialmente, em 1959. E não me parece que era isso que Italo Calvino tinha em mente.
P. - Substitui "segura consciência" por "segurança consciente".
A.-P. - Hoje estás fluente...
P. - Mais uma dessas e dou-te uma cabeçada.

* Italo Calvino - O Cavaleiro Inexistente

FS

Diálogo 1

Profeta - Deita-me aí um whisky...
Anti-Profeta - Parece-me que há um desnorte geral.
P. - Quê?
A-P. - Desnorte!
P. - De quê?
A-P. - Por parte das pessoas.
P. - Que tem isso a ver com o Red Label?
A-P. - Apenas a desfiar conversa...
P. - E porquê?
A.-P. - Porquê o quê?
P. - Porque achas que há desnorte?
A.-P. Porque as latitudes e as latitudes já não respondem às bússolas.
P. - Não percebi.
A.-P. - Deixa lá.
p. - Hmm.
A.-P. - O que será que substitui os valores, hábitos e convenções que sofrem hoje erosão?
P. - Os valores não sofrem erosão nenhuma.
A.-P. - Não?
P. - Isso é conversa fiada...
A.-P. - Eu disse que estava a desfiar conversa...
P. - Tretas.
A.-P. - Acho que tens razão. Morreram costumes, isso sim - um corpo normativo, consentido e defendido, de direito consuetudinário.
P. - Isso mais depressa.
A.-P. - E as pessoas, sem rede por debaixo da corda bamba, têm de refugiar-se noutras normas, noutros códigos. Coisas dos tempos nossos, velozes e transitórios.
P. - Nunca te disseram que usas demasiado as palavras norma e normativos, etc. e tal?
A.-P. - É capaz.
P. - E porque achas isso importante?
A.-P. - Porque, sem práticas forjadas na têmpera dos tempos, hoje anseia-se por regulamentar tudo e proibir muita coisa.
P. - Passa-me daí uma linguiça para pôr aqui na grelha.
A.-P. - Não concordas?
P. - Hmm... Ainda há coisas do passado que guiam a gente.
A.-P. - Mas é tudo remetido para um baú de velharias.
P. - Referes-te a quê, concretamente?
A.-P. - Arranjas-me um cigarro?
P. - Outra vez?
A.-P. - Refiro-me à mentalidade higienista e dietética, ao ambientalismo militante e autista, ao pacifismo de sofá, à repressão do vício e da liberdade de, se quisermos, sermos decadentes.
P. - É capaz de ser, é.
A.-P. - Olha, a penalização das drogas, por exemplo.
P. - Sim.
A.-P. - Muita gente não imagina que, em termos históricos...
P. - Vamos falar de história outra vez?
A.-P. - Não.
P. - Ok.
A.-P. - A penalização é coisa recente. O poeta consumia ópio para aguentar a vida.
P. - Quem?
A.-P. - "Olá, guardador de rebanhos, / Aí à beira da estrada".
P. - Rebanhos?
A.-P. - Fernando Pessoa!*
P. - Outro louco.
A.-P. - Outros loucos, queres tu dizer.
P. - Liberdade a mais mata.
A.-P. - É possível, mas isso não é razão suficiente para coarctá-la.
P. - P'ra quê?
A.-P. - Esquece.

* Isto é, Alberto Caeiro.

FS

A "guerra dos sexos"

A 'colectânea' da Caixa de Pandora foi ao Directo Europa da RJM 88.8, no passado 11/09. Falamos sobre as nossas moderadas e acaloradas opiniões sobre a 'guerra dos sexos'. Aqueceu!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Radio Directo Europa 21/08



A Caixa de Pandora foi ao Directo Europa, Radio Jornal da Madeira, no passado dia 21/08 debater portugalidade... No final ainda ficamos com dúvidas sobre o que é efectivamente a portugalidade, mas a conversa foi animada!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Piromania de Ideias


Num anterior post, referi a minha preocupação face a uma vaga de manifestações de intolerância na Europa, e a impunidade pela qual passam na opinião pública. Era referente à situação da comunidade Roma e a sua expulsão do território francês.

Hoje trago-vos mais um exemplo chocante, desta vez da Alemanha. Trata-se das mais recentes afirmações xenófobas de Thilo Sarrazin, membro do conselho executivo do Bundesbank, membro da SPD, ex-Senador de Berlim (pasta das Finanças), e frequente agitador popular sobre temáticas quentes como a imigração e Harz IV (o equivalente ao RSI).

Lançou na passada 2ªf o seu livro, "Deutschland schafft sich ab" ("A Alemanha em Queda"), onde desenvolve uma panóplia ofensiva de argumentos controversos. Entre afirmações de que os "judeus têm um gene especial" e "os imigrantes estão a estupidificar a Alemanha", Sarrazin chamou a atenção dos media para um aumento do medo de uma hipotética "islamização da Europa". Neste livro Sarrazin não quer que os seus "filhos e netos cresçam num país onde são a minoria". Onde será que já ouvimos estes argumentos de limpeza genética, caracterização monolítica de povos, e apresentação em bandejas prateadas de bodes expiatórios?? Pergunta retórica, nem preciso de responder meus amigos.

Pessoas deste género padecem de uma doença parecida à piromania, sentindo particular excitação em ver o efeito incendiário das suas palavras nas massas. Partidos da extrema direita na Europa já louvam Sarrazin, entoando que o que a Europa precisa é de "Sarrazin e não mujahedin". É preciso alertar para que a nossa geração não seja testemunha activa da nova "jewish question", agora transformada em "muslim question".

Pelo menos desta vez o conselho executivo do Bundesbank através de Axel Weber teve uma atitude coerente e exonerou ontem Thilo Sarrazin deste órgão do banco. Resta agora esperar pelo confirmação desta decisão por parte do Presidente Alemão, Christian Wulff, mas a pressão de Angela Merkel, de todos os partidos políticos, quadrantes sociais, e ultraje internacional, certamente irão conduzir Wulff à exoneração definitiva de Sarrazin.

Curioso é a semelhança etimológica do seu sobrenome com os "Sarracenos": ele assina com o antigo nome dos mesmos que tanto abomina. Mas o que é mesmo curioso é que o próprio Thilo Sarrazin é descendente de Huguenotes, o grupo de protestantes franceses perseguidos no séc XVI e acolhidos pela Prússia, entre outros territórios protestantes.

De facto a memória humana é bem curta e lamento que assim a própria memória genética não consiga contribuir para uma sociedade mais plural.

RB

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Psicologia e Catástrofes Naturais

Quando um território do tamanho da Itália se encontra submerso;
Quando 20 milhões de pessoas perderam o pouco que possuíam;
Quando quase 1400 pessoas imediatamente faleceram com a força da Natureza das cheias;
Quando 3,5 milhões de crianças se encontram em risco de contrair doenças mortais propagadas por águas insalubres;
... será que se justifica manter preconceitos e restringir as doações financeiras à situação de calamidade no Paquistão?


A verdade é que o ritmo de ajuda humanitária a chegar ao Paquistão é não só muito mais lento como menor em quantidade do que, por exemplo, a vaga de apoio em resposta ao sismo no Haïti. Será admissível que em questões de catástrofes humanitárias as considerações políticas e religiosas figurem mais alto que a compaixão pelos nossos irmãos e irmãs que sofrem com as cheias mais graves do século?
Pergunto-me também o que é que facilitou enviar o nosso contributo para o Haïti – o que é que o Haïti tem e o que que falta em termos de “kudos” de empatia aos Paquistaneses. Mas é preciso dar a volta à questão: o que é que existe na imagem do Paquistão que dificulta a compaixão do exterior? Alguns pontos prendem-se com o terrorismo, talibãs (o vale Swat e a impunidade fundamentalista é conhecida pela opinião pública internacional), corrupção e o programa de misseis nucleares. O cidadão ocidental não acredita que os seus euros e dolares chegarão ao destino e considera que um Estado que investe fortemente na sua capacidade nuclear deveria redireccionar esse financiamento para ajudar as vítimas das cheias.
Mas acho que ainda há um outro factor: a progressiva perda de sensibilidade para o sofrimento alheio e o sentimento de que os parcos euros que mandamos em ‘cheque branco’ não ajuda em nada as verdadeiras vítimas de catástrofes naturais.
Quando vemos o desastre organizacional no Haïti e a incapacidade desse governo em recontruir o seu país é mais do que natural se questionar da validade do destino do nosso apoio. É esta a problemática da transferência de apoio humanitário para localizações pouco democráticas ou em estados fragmentados e fragilizados. Em democracia estamos habituados a que o ‘fio vermelho’ de todas as nossas acções e transferências se encontre contabilizado; é a legitimidade das instituições em causa. O ponto até que esta legitimidade é exportável para regimes pouco democráticos é altamente questionável.
Entretanto, como é que a nossa consciência humanitária pode dormir descansada enquanto a fúria das águas destrói o Paquistão? E há um perigo pior que as cheias. Tal como as doenças proliferam em ambientes de cheias e nos campos dos desalojados, o Paquistão encontra-se a cada dia que passa em perigo crescente de cair definitivamente para o fundamentalismo, com a bênção da apatia ocidental, pois os apoios dos fundamentalistas islâmicos não têm abrandado.
Deixo aqui o site da Cruz/Crescente Vermelha/o onde poderá dar o seu contributo para as vítimas das cheias no Paquistão.

RB

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lula, o da Silva, Esquerda, Direita... roubar!



A propósito deste vídeo, o qual classifiquei de degradante no Facebook, recebi um "ataque" de um grande amigo e primo, que me acusou de ser incapaz de reconhecer que «um "ex-operário com ideias de esquerda" pudesse operar uma revolução nas condições de vida de boa parte dos brasileiros», citando o The Economist. Além disso o meu primo alega que no vídeo apenas se constata que Lula é um político, mas que ao contrário dos outros não rouba. Respondi desta forma:

Mas que grande confusão vai na tua cabeça. Em 1º lugar não me custa nada que a política de esquerda, ou que a de direita, resulte. É de resto com grande satisfação que o constato quando tal acontece. Como vejo o espectro e nomenclatura pol...ítico-ideológica de uma forma distinta do vulgar «o meu clube é melhor que o teu» é sempre com agrado que registo quando as populações, os cidadãos, ou na sua concretização enquanto espaço de identificação comum, o Estado, seja ele qual for, consegue tirar dividendos de um qualquer projecto económico-social, utilizando como instrumento para tal uma determinada matriz política. Posto isto verifico alguma surpresa da tua parte por uma (alegada) metodologia de "esquerda" resultar. Não te sabia tão céptico. Na verdade as correntes ideológicas e filosóficas de esquerda foram, e são, fundamentais não só no necessário equilibrio da balança politica, partidária e institucional, como consagram importantes avanços nos direitos dos camponeses (1ª), mulheres (2ª), operários (3ª) e crianças (4ª) ou mesmo na autodeterminação dos povos. E naturalmente que não estou a falar das conquistas da segunda metade do séc. XX, mas sim dos avanços que a Inglaterra inspirou desde o séc. XVI até ao final do séc. XIX, como o Settlement Act, o Korn Laws e outra emendas constitucionais. Falar da Social-Democracia Alemã da 1ª metade do séc. XIX seria fastidioso, mas certamente concordarás que resultou num manual de pensamento e prática de maior abrangência democrática, proporcionando direitos às classes menos favorecidas, e culminando (por lógica evolutiva) num aumento da saúde económico-social dos países do centro da Europa. E como vês estou a evitar os clássicos Hegel, Rosseau, Marx ou Sartre, a quem dispenso citar o contributo na evolução ideológica (deveria dizer psicológica? mental? civilizacional?) do indivíduo e da sociedade. Voltando ao vídeo, e admitindo que o Lula tem essas virtudes todas que apontas (já lá vamos): isso invalida que seja degradante? e acrescento mais: demagógico! e ainda: desviante! Então um puto da favela gosta de jogar ténis e dois imbecis o desmotivam porque é "burguês"? E se fosse? Era melhor que o miúdo traficasse droga ou roubasse? Isso já não é "burguês"? E o que tem de "burguês" um desporto que se joga com uma raqueta que pode custar meia dúzia de patacos? E já agora o que é ser "burguês" no séc. XXI? Não faz o Lula vida de "burguês"? É de facto uma designação... degradante. Vamos às políticas do Lula e do PT. É simpático da tua parte considerá-las de esquerda, tendo em conta o processo de abertura às economias e capitais estrangeiros que o Governo do PT empreeendeu, dando seguimento ao começado no Governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC). De facto Lula, e os seus detractores de "esquerda" confirmam, continuou as políticas de FHC em 3 sectores que impediam a descolagem da economia Brasileira (muito potente internamente, mas localizada no espetro social, e virtualmente inexistente no contexto externo): combate à corrupção (+ combate à economia paralela), capitalização da economia (carente de fundos, como de resto a nossa) e formação de quadros. Se estiveres mais atento à realidade brasileira verificarás (e agora até se torna bastante fácil com a pré-campanha presidencial) que os grande ataques ao "método Lula" vêm dos partidos de esquerda, alguns formados por ex-camaradas de Lula, que o acusam de traição. Outro exemplo simples e contemporâneo é o do negócio Vivo/PT/OI, onde Lula permitiu que num sector estratégico como as telecomunicações se entregasse a decisão a empresas estrangeiras. Se o maior operador móvel (VIVO) já estava, e continua, em mãos exteriores, o maior operador fixo e de cabo (OI) fica agora exposto ao acordo entre um accionista de referência estrangeiro (PT) e dois empresários independentes brasileiros, podendo afastar do centro das decisões o parceiro Institucional do Estado, o Banco Estatal de Fomento - BNDES. Parece-me neste caso um Lula bem mais fiel às leis do mercado, mais capitalista, liberal ou "direitista", se quiseres, do que Sócrates (visto por certa esquerda como um "infiltrado" das forças de direita). Também o facto de Lula, que durante tantos anos praguejou Davos, do alto do palanque de Belém/Portalegre, ter imediatemente abandonado os altermundialistas à sua sorte ao primeiro chamamento dos outrora por si insultados capitalistas da Globalização parece dar razão aos que o acusam de traição. Lula foi de facto mais longe que FHC no que diz respeito ao apoio à pobreza extrema, em programas do género do que chamamos aqui "Rendimento Social de Inserção". Sendo contra este último no nosso País, admito que face à conjuntura radicalmente mais grave e lacta do Brasil que tal o justifique. Mas é preciso não esquecer o trabalho que as Perfeituras e Governos Estaduais fazem nesse aspecto. O programa de limpeza de fazelas que está a ser feito no Rio, hoje com quase uma dezena de gigantescos Bairos de lata/Estados (que de facto o são, ou eram) livres do controlo dos traficantes, permitindo a que os jovens se dediquem aos estudos ou desporto invês de serem obrigados a traficar ou roubar, quebrando assim o ciclo da pobreza, é de importância... capital. Além de hercúleo, parece-me um trabalho tão ou mais importante do que o "Fome Zero" ou "Cestas Básicas". Por fim não posso deixar passar o «não rouba». Eu não sei se o Lula rouba, mas sei que o seu governo foi o protagonista do maior escândalo de corrupção da Democracia Brasileira - o Mensalão, superando o caso que valeu a distituição de Fernando Collor de Mello em inícios dos anos 1990. Enquanto neste último a família Collor "apenas" tinhas uma série de despesas pagas indevidamente por parte de empresas fantasma encabeçadas pelo então célebre Paulo César Farias, o que só por si constituiu um caso gravíssimo, com a já referida destituição, no caso do Mensalão tratava-se de uma enormíssima rede que utilizava dinheiro de empresas públicas para pagar a agentes do Estado, nomeadamente deputados, chorudas "mesadas" (daí Mensalão) para que fossem aprovadas medidas do seu interesse. Há 40 réus que, julgo, ainda esperam julgamento final. Podes falar que a corrupção aqui foi mais... democrática: em vez de roubar um roubavam muitos! Lula defendeu-se dizendo que nada sabia. Pior... tinha em alguns dos seus mais directos colaboradores virtuosos mafiosos e não se apercebeu. Neste caso, Luís, não há três opções. Só duas: ou o teu «ex-operário com ideias de esquerda» é um grande corrupto, ou é tão incapaz de governar que se pode fazer o que se quiser nas suas (lendárias) barbas. Corrupto ou burro? Escolhe...

TF

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Agarrem-me!!!!






Numa altura em que, quatro anos de doença e uma abdicação do cargo de Presidente depois, Fidel regressa com nova postura de estadista ( a propósito, em que qualidade discursou esta semana na Assembleia Nacional?), a sua caricatura acrescenta mais uns rabiscos ao já de si pobre desenho: Colômbia e Venezuela reataram relações depois do encontro presidencial com o recém empossado Juan Manuel Calderón. Cai assim por terra o corte diplomático e ameaça de Guerra declarado há coisa de um mês por Chavez (para os mais distraídos é dele que falo) com Maradona ao lado (já imaginaram Bush declarar guerra ao Iraque com Pelé a ladeá-lo?), acusando o cessante Álvaro Uribe das mais viltres manigâncias. De facto, ameaçar um País com um conflito sangrento, ainda mais o seu mais importante vizinho(mais que o Brasil) de quem se depende há décadas culturalmente e , em parte, economicamente semanas antes do seu Chefe de Estado e de Governo deixar o cargo, deixa a ideia daqueles corajosos que ao verem um inimigo dizer adeus num navio que se afasta do cais gritam «agarrem-me senão bato-lhe...Agarrem-me!».
É por outro lado um acordo demasiado rápido, porque conseguido com um ex-membro do Executivo de Uribe, ainda mais tendo ocupado a pasta da Defesa Nacional, sendo improvável uma mudança substancial no que diz respeito às exigências da parte Colombiana para que Caracas deixe de ser complacente (sendo simpático) para com as FARC, ELN e outros movimentos que utilizem a ideologia como pretexto para traficar.
Fidel não disse, mas poderia ter dito:« Todo el Hombre tiene su Sierra Maestra». A de Chavez é, infelizmente, bem baixinha.


TF

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ginseng e Libido

Para não induzir ninguém em erro, quero deixar claro que a Coreia do Norte é um regime brutal, repressivo, dona de diversos campos de concentração no seu território. É um exemplo vivo de desrespeito total pelos direitos humanos dos seus cidadãos, que (sobre)vivem num estado de absoluta miséria. Mas por vezes emite notícias tão rocambolescas que criam uma aura de surrealismo político que sobressai neste nosso mundo (possivelmente) pós-ideológico.

Hoje temos mais um caso desses.

De acordo com o FT, Pyongyang comprometeu-se a liquidar parte da sua dívida para com a República Checa através de um grande lote de ginseng em vez de dinheiro (sim, leram bem), pois os excessos totalitários da DPRK levaram o regime à quase bancarrota.

Oficiais checos confirmaram que Pyongyang se tinha oferecido para resolver 5% da sua dívida acumulada de Kc186m (10 milhões US$) em ginseng, uma raiz revigorante utilizada em suplementos dietéticos e chás que supostamente melhora a memória, o vigor e a libido. Recordemo-nos que a antiga Checoslováquia era um dos principais fornecedores de máquinas pesadas, camiões e obrigações da Coreia do Norte. No entanto, os checos entretanto convertidos ao capitalismo, não estão convencidos de que precisam de tamanha injecção de "robustez" gingseniana. "Estamos a tentar convencê-los a nos enviar uma transferência de zinco, que é extraído lá", disse Tomas Zidek, vice-ministro das Finanças da República Checa.

Este tipo de transacção não seria inédito entre países socialistas - Hugo Chavez dá um desconto a Cuba no petróleo, por enviar médicos cubanos para trabalhar nas zonas mais carenciadas da Venezuela. Se a moda pegar, será que ainda vamos assistir à chegada de um navio-cargueiro cheio de pau-de-cabinda de Angola para Portugal?

RB

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Why is he, in fact, so sad?

Não se arranja uma sucedânea da Marilyn Monroe bem gorduchinha para isso?

FS

Why is Mr President so sad?


Em seguimento ao post do Filipe, tinha que partilhar esta imagem deprimente de Barack Obama a festejar os seus anos na semana passada. Como diz no Frisky, alguém que lhe cante "Happy birthday Mr President"!


RB

domingo, 8 de agosto de 2010

Digressões na Corda Bamba

Certa vez, confessei a um dos meus amigos Pandorianos (o Tiago) que, para mim, o John McCain é que era. E confissão era de facto - quase como quem relata um pecado, esperando pela expiação. Sabemos o quanto pode ser difícil marchar contra o mainstream, em termos de opinião, seja indoors ou outdoors. (Uma das formas de parecer informado e inteligente consiste em usar palavras e expressões nessa língua franca que é o inglês - espero que gostem.) De qualquer modo, vem isto a propósito de duas leituras, em certo grau antagónicas, do primeiro ano e meio de governação de Barack Obama. (Gosto da palavra antagónico - estava mesmo à espera de uma oportunidade para usá-la; tal como gosto, imensamente gosto em boa verdade, de expressões como "em certo grau", "de certa forma", "até certo ponto". Que grau? Que forma? Que ponto? Não se sabe - e não é suposto saber-se.)
Onde ia eu? Ah, Obama e tal. Bem, está o actual Presidente dos EUA na mais baixa maré, em termos de popularidade, desde que iniciou funções. Eu desconfio, desconfio cada vez mais de modo visceral, de homens providenciais, que valem por um discurso, por uma imagem. Fazem-me sempre lembrar o carismático profeta que inicia uma seita e acaba linchado pela turba. Mas divago e exagero, com certeza.
A verdade é que Obama não tem conseguido debelar a crise económica e social que assole os EUA, apesar de nunca descurar a sua imagem pública - que é, afinal, o seu ponto forte. Conseguiu, todavia, à tangente, aprovar uma reforma de saúde - mais social, cujo desiderato é o de assegurar o acesso a cuidados de saúde por uma larga faixa de população americana - que não dispunha desse acesso. Muito recentemente também, uma campanha, cujo rosto é a Primeira Dama, tem vindo vindo a defender medidas públicas contra a obesidade, neste caso obesidade infantil. O propósito parecerá louvável e muito higiénico. No entanto, tem dado livre curso a - ou aumentado o caudal de - opiniões, algumas de especialistas, que referem a obesidade como uma «epidemia». A palavra insinua-se bem - mas é tudo menos inócua.
Com efeito, parece-me que o corolário de uma saúde mais estatizada, mais social, será sempre esta imposição de certos hábitos que se querem muito saudáveis. A ingerência nas escolhas e na liberdade pessoais é, porém, flagrante. E a questão torna-se ainda mais discutível quando, com o patrocínio do Estado - na Europa Ocidental; nos EUA -, de repente há uma porção da sociedade civil (por ser gorda, por ser fumadora, por ser... - onde acabaremos nós?) da qual, inevitavelmente, se dá uma imagem de decadência e de comportamento socialmente reprovável.
A esse respeito, não resisto a transcrever sapientíssimas e galhardas palavras de Miguel Esteves Cardoso:

"Ser-se gordo, hoje em dia, é um acto de resistência, um grito de liberdade.
Toda a cultura vigente, higieno-fascista e cobarde, diz-nos para ter cuidado com isto e aquilo; para não abusar; para nos submetermos às ditaduras das análises do colesterol e do diabo a sete. Querem que vivamos acocorados, tremendo de medo dos malefícios de tudo o que nos sabe bem há séculos a fio, negando a nós próprios qualquer prazer que não esteja regimentado, planeado e aprovado pelos mandarins da saúde pública. Querem que subsistamos como escravos e, caso persistamos em perseguir o que é reconhecidamente bom e agradável, que nos sintamos culpados e indecentemente arrependidos.
Pois não há-de ser assim que nos convencem. O pão com manteiga e o gin-tónico; as simples batatas fritas; a gordurinha estaladiça das costeletas de borrego... todas estas coisas nem sequer piscam quando as autoridades as proíbem e denigrem." (Miguel Esteves Cardoso - A Minha Andorinha, Assírio e Alvim).

FS

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

1ª experiência multimédia: aceitam-se doações de câmeras de filmar!


Este é um pequeno excerto de uma conversa sobre o multiculturalismo da Caixa de Pandora. A vida é composta por 1as experiências, e vamos procurar ser aprendizes do MovieMaker!

Màrio Bettencourt Resendes, a Ilha e Macau




Mário Bettencourt Resendes morreu. Além de eterno director do DN era também um consagrado e escutado opinador da República. Nunca escondeu o seu perfil ideológico, nem o partido com o qual mais se identificava. Talvez pelo tempo que passou com Soares em Paris, talvez devido às lutas académicas, talvez devido ao já centenário espirito Republicano de índole social democrata dos intelectuais Açorianos. Conseguia contudo destinguir a ideologia das ideias. Era um moderado, procurando ser uma voz independente, ainda mais reforçado pelo facto de não encapotar a sua matriz ideológica. Gostava de o ouvir e ler, pois sabia que ele sempre procuraria a razoabilidade em vez do frete, a análise concreta em vez da defesa do indefensável. Nos dois últimos anos da sua doença, quando fisicamente se encontrava debelitado a "olho nu", terá perdido alguma dessa independência, tornando-se mais acintoso e quiçá mais partidário. A sua insularidade estava nos genes, e nunca o escondeu. Foi particularmente duro com Cavaco quando este se opôs ao Estatuto Politico-Administrativo dos Açores, posteriormente confirmado pelo Tribunal Constitucional. Era portanto um autonomista. Tanto que , tal como inserto no vetado Estatuto, considerava que o Parlamento Açoriano deveria depender menos da Presidência da República do que a AR. Curiosamente este é o mesmo homem que, segundo confessou publicamente, teve como um dos desgostos da sua vida o facto de não ter sido nomeado Governador de Macau. A sua proximidade com Soares ter-lhe-ia porventura podido proporcionar tal desiderato. Talvez fosse demasiado jovem para o fazer em 1991 quando Rocha Vieira (curiosamente um ex- Ministro da República dos Açores) foi indigitado último Governador do território Chinês sob administração portuguesa. Talvez quisesse que Soares o colocasse no cargo aqundo da sua saida da Presidência. Quem sabe? O interessante é como um vigoroso ilhéu e autonomista tinha como sonho de vida ser o símbolo do último baluarte do império. Um autonomista imperialista?Um contra-senso? Como defender algo e por um lado sonhar com o simbolo oposto? Não, não é crítica, nem simpático seria fazê-lo tão poucos dias após a sua morte. É até compreensivel, e nem será caso virgem. No fundo são as dinâmicas do poder, que movem os homens , as sociedades. Pode um autonomista tornar-se Imperialista? Pode. E um imperialista tornar-se autonomista? Também. E pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? Sem dúvida. O importante é, como fez Bettencourt Resendes, dizê-lo claramente.
TF