terça-feira, 23 de novembro de 2010

Diálogo 3

Anti-Profeta - Que achas daquilo que o Papa disse sobre o preservativo?
Profeta - Como é possível usar Papa e preservativo na mesma frase? Foda-se...
A.-P. - Não estou certo de que essa seja a linguagem mais apropriada, tendo em conta os nossos potenciais ledores...
P. - A mim ninguém me paga para ser liso.
A.-P. - Lido, queres tu dizer.
P. - Não. Liso.
A.-P. - Mas se nos dão acesso a esta tribuna, sempre podemos ser mais educados e...
P. - Estou a borrifar-me para isso!
A.-P. - Bem, ok. Mas que achas?
P. - Sobre o quê?
A.-P. - Sobre o que disse o Papa!
P. - Para mim era pegar nessa padralhada toda e...
A.-P. - 'Tou a ver que hoje não dá para falar contigo!
P. - Passa-me daí o entrecosto para pôr aqui na brasa.
A.-P. - ...
P. - Acho bem.
A.-P. - Achas bem o quê?
P. - O que disse o Papa.
A.-P. - ?
P. - Exactly, my looser friend.
A.-P. - Onde é que aprendeste inglês?
P. - States.
A.-P. - Achas bem? Ou tardio? Ou ainda pecando por defeito?
P. - Não. Ninguém pede a um carvalho para dar castanhas.
A.-P. - Não percebi.
P. - Não percebeste que és burro.
A.-P. - Pensava que, como contestatário de esquerda que és, que achavas, como muitos, que a posição do Vaticano sobre o preservativo - e tendo em conta a disseminação da Sida em África, em especial - era nada menos do que criminosa.
P. - Estou a ficar velho.
A.-P. - ...
P. - E desde que te aturo que envelheço mais.
A.-P. - Mas como assim?
P. - You're a pain in the ass.
A.-P. - Não! Como achas bem o que disse Bento XVI?
P. - A Igreja faz incidir a sua estratégia na abstinência; depois na fidelidade; e no fim no preservativo.
A.-P. - Acho que é a primeira vez que te ouço dizer estratégia sem ser a brincar.
P. - Lê o texto de novo.
A.-P. - Como?
P. - Esquece.
A.-P. - Não achas isso desfasado da realidade?
P. - Não.
A.-P. - ...
P. - Dar azo aos desejos carnais, dar azo sobretudo aos desejos, faz uma pessoa sumir-se como pó ao vento.
A.-P. - Isso é pouco revolucionário.
P. - Estás enganado my loser friend. Isso, hoje, é o que há de mais revolucionário.

FS

Um pote de Alcaçuz


Submergi os dedos em alcaçuz, pensando que a negritude acalmaria o fogo interior, que por essas horas lavrava amplos bosques.

Esperei que o excesso caísse, pingos espessos de alcaçuz líquido que tingiam de negro o meu colo e aguçavam os sentidos.

Ao me perder nas gotas, não senti que a terra continuava a arder. Só o poder olfactivo conseguiu raptar-me do mundo dos sonhos pois foi o cheiro do humo envolto em chamas que me agitou.

Afinal tinha estendido a mão ao pote errado e este licor era alcatrão com cheiro a raiz-doce. Alcatrão impostor que só serviu de acendalha para a combustão.


RB

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cemitério 1




eu pensava que era a predilecta
criação de deus na terra



e por isso acordava e adormecia
com a imortalidade no tempo perdido


em minhas encardidas mãos


mas entrei de manso e em silêncio
na cidade dos mortos



transposta a entrada
ali tudo é circular e sem pontos de fuga



[Fotos do Cemitério paroquial de Santo António da Serra]


DV, alias FS

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Juventudes Partidárias

Nova tertúlia pandoriana, desta vez dedicada à temática das juventudes partidárias: será que fazem sentido no mundo de hoje, qual a sua utilidade, será que subvertem a democracia?

Muitas perguntas, muitos gatos fabulosos e acima de tudo, muita troca de perspectivas. Enjoy.

video
3ª e última parte!

Porque fotos de grupo não são só para clubes de futebol...

sábado, 6 de novembro de 2010

O condutor

Nunca soneguei as náuseas que me causam as juventudes partidárias, coisa que se assemelha a uma fábrica de autómatos, cumprindo a distopia de Aldous Huxley. Mas há momentos em que a náusea quase ganha uma dimensão tangível. Anda por aí um pequeno burguês a adejar o estatuto de “Geração Madeira”. O pequeno burguês é candidato à liderança do apêndice “jovem” do PSD. O pequeno burguês não tem consciência de que, ao reivindicar o estatuto de “Geração Madeira”, está a vilipendiar todos os madeirenses que não se revêem num puto que não representa nada, nem ninguém. Mais: nunca leu Pessoa. Se o tivesse lido, saberia moderar a megalomania. Porque “conquistamos todo o Mundo antes de nos levantarmos da cama”. Depois, já seria bom se encarássemos o quotidiano com a ambição de combater a sina de “cadáveres adiados”.
O pequeno burguês, disto, nada sabe. Mas quer liderar. Mais do que liderar, quer guiar. Talvez por isso o seu rosto deambule pela Madeira, atrelado a um autocarro destinado a aprendizes de "pesados". Até aqui o pequeno burguês cometeu o pecado da megalomania. Não sabe guiar, e já quer assumir um “pesado”. Pequeno burguês, um recado de quem não te conhece, nem é teu amigo: vai devagar, rapaz. Começa pelos ligeiros. Se tiveres mãos, quem sabe... Olha, há dias fui ao kartódromo do Faial. É coisa fácil de se lidar. E que tal se começasses por um kart? Nem precisas de carta.
VS