quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Depois do terror: por que sobrevive o comunismo em Democracia? (1)


Há alguns dias, cruzei-me com uma caracterização inverosímil do fascismo português. Alguém rotulava de “light” o Estado Novo, regime assente numa das ramificações do totalitarismo genealógico do século XX. A avaliação decorria de uma análise quantitativa das perdas humanas originadas pela acção repressiva do Estado Novo, em comparação com os fascismos alheios, de matizes espanhol e italiano, e com o “mal absoluto” nazi. Apesar de, no plano quantitativo, se exibir Hitler como o grande carniceiro da “direita totalitária”, Estaline tem razão quando definiu uma morte como uma “tragédia”. Mas quando infligida pelas mordaças asfixiantes de um Estado, a tragédia reveste-se de torpeza irremissível, pelo que a aparente filantropia de Estaline sucumbe à sua eterna condição de assassino ávido. A banalização do mal converte, efectivamente, a “tragédia” em estatística, solidificando os alvores do século XXI esta relação. No Congo ou no Darfur, no Ruanda ou na Libéria, a adição de 10 mil mortes a uma contabilidade macabra não provoca um inelutável acréscimo de dor no observador longínquo. O Homem urbano do século XXI acomodou-se aos relatos de chacinas, difundidos pelos jornais nos interstícios das páginas “internacionais”.

Só uma degeneração da essência humana permite que a asserção de Estaline exiba pertinência. Todavia, no intuito de aplacar a gangrena, torna-se imperioso repudiar qualquer Estado responsável por mortes, derivadas de actividades persecutórias ilegítimas. Não há, por isso, “fascismos light”, mesmo que o Estado Novo estivesse vinculado, “somente”, a uma morte.

A recente notoriedade que a extrema-direita, em Portugal, conquistou coage o Homem com memória a recordar os seus antecessores ideológicos. Entre os totalitarismos de direita, o nazismo foi o seu derivado mais fugaz e letal, definido como o “mal absoluto” pelas precursoras abordagens da vida e da morte. Apesar de o comunismo soviético ter aniquilado mais vidas – em mais de 70 anos de vida –, a industrialização da morte confere ao nazismo uma particularidade que o comunismo nunca tentou decalcar. Na União Soviética, durante os ominosos anos da Grande Fome, milhões sucumbiram à inanição, desenlace cujas responsabilidades devem ser atribuídas a um conluio entre a malignidade humana e a voracidade do tempo. Na Alemanha nazi, pelo contrário, a actividade humana foi a única responsável pelo extermínio. Tzvetan Todorov, em Memória do Mal, Tentação do Bem, escreve: “Se é certo que as classes inimigas devem ser eliminadas, essa tarefa caberá essencialmente à história e à natureza (a tundra gelada da Sibéria). Os nazis põem em prática o mesmo desprezo pela vida nos campos de concentração ou na exploração dos trabalhos forçados; porém, nos campos de extermínio, a morte transforma-se num fim em si mesmo. Nesta perspectiva, cada um dos dois regimes conserva a sua especificidade, apesar da semelhança dos seus programas”.
(continua)
VS

Portugal, ein Schrecken ohne Ende

Apesar de não me considerar beata (aliás, será que o habitat natural do termo 'beato' se circunscreve ao catolicismo mediterrânico?) aprecio muito os escritos de João César das Neves. Hoje ele publicou um interessante post relativo às medidas de austeridade anunciadas ontem por José Sócrates. Defende a entrada do FMI na gestão pública de Portugal enquanto "bomba atómica" que sanearia o sistema putrefacto dos dinheiros públicos.
De facto não podemos ficar pelos cortes e pelas costuras orçamentais; temos que ir além. Além da subida de IVA. Além dos cortes no abono familiar. Além das subidas nas contribuições à ADSE e CGA. Porque estas medidas só têm por objectivo sobreviver o dia de amanhã em termos da maquinaria estatal. Mas nós temos que projectar-nos no futuro e a longo-prazo, estratégia para o qual é inevitável o efeito 'tabula rasa' no sistema sócio-económico-político português.
Em alemão existe uma expressão que sigo à letra: lieber ein Ende mit Schrecken, als ein Schrecken ohne Ende (trad: é melhor um fim terrível do que um terror sem fim). Temos que acabar com todas as benesses que a função pública tem acumulado ao longo das décadas que mais não fazem que cimentar estruturas imóveis, pesadas e lentas. É preciso morder o cabedal, olhar em frente e seguir com um modelo de reestruturação da coisa pública.
Falo de subsídios, por exemplo, que, pela sua natureza não são tributáveis. Qual é a lógica de pagar subsídios de imagem a assessores e afins? E os subsídios de representação quando o funcionário não se ausenta do serviço?
Mas não é só nos funcionários públicos que temos que analisar a fundo os gastos. Só se pode pedir a um povo que arregace as mangas e aperte os cordões da bolsa se os exemplos de cima são espelhados nessas medidas de austeridade. Certamente que casos como a sra deputada Inês de Medeiros nada fazem para credibilizar a gestão de fundos públicos nas nossas instituições.
Temos que ter políticos com a coragem da candidata dos Verdes nas Presidenciais Brasileiras, Marina Silva, por exemplo, que quando foi eleita vereadora de Rio Branco devolveu o dinheiro de gratificações, auxílio-moradia e outras mordomias que os demais vereadores recebiam sem questionamento.
Temos que enfrentar esta crise como a oportunidade para finalmente criar um sistema político e estatal do qual os portugueses se podem orgulhar. Quando exclamaremos "Portugal est mort. Vive le Portugal!"?

RB

Na razão está a solução?


O 1º Ministro anunciou hoje a um abatido Portugal medidas de austeriade(grande ou pequena depende do analista, e do modelo de sociedade e de economia que preconiza)que prometem mudar a vida dos portugueses nos próximos...anos.Umas das raízes do problema tem certamente a ver com o início da crise internacional. Mas não pelas razões que «Sócrates e sus muchachos» advogam. O Governo, a reboque de alguns Nóbel de sala de aula(hello economia real!!!), e de uma opinião pública e publicada inculta e papagaia, chegou à brilhante conclusão que a solução para a recuperação da crise (ainda que a nossa fosse, na altura, distinta da Internacional) seria «injectar dinheiro na economia». Era Keynes que ressuscitava! Pois bem, o défice das contas públicas mais que quadruplicou ajudado, sejamos justos, por uma diminuição das exportações e do turismo (agravando o défice da balança comercial) decorrente da própria crise, e por razões essencialmente exógenas. Ninguém fala dessa "injecção" de dinheiro, para onde foi, para que serviu, o que salvou, e de que forma passou de conjuntural para estrutural. è que tenho dificuldade de acreditar no sobrenatural, principalmente no que se refere a humanidades como a economia. Ainda não vi ninguém falar, debater, escalpelizar este ponto. Pode ser um bom princípio...


TF

Nota: O FMI não vêm aí..já cá está. Chama-se "Conselho Europeu" (e também "EcoFin"). Sempre que se aproxima um... lá vem bomba!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Venus ...Ontem, Hoje e Sempre?

Já repararam que este vídeo, tendo mais de 40 anos, poderia ter sido feito na semana passada? Os instrumentos são iguais aos que se utilizam hoje, as roupas idem(até porque o "retro" está na moda) e a sonoriade não é datada, é perfeitamente contemporânea. Imaginem agora 20 anos antes deste video. Ele não poderia ter sido feito em 1949!Muito menos em 1929(40 anos, a mesma que nos separa). Na era da maior evolução tecnológica da História estagnámos culturalmente? Ou apenas conseguimos a vitória de não deixar o que é bom para trás(esquecido)?

TF

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mulheres, Armas e Heranças


Existem pessoas que quando de repente ganham uma herança familiar e pouco habituados a gerir dinheiro, gastam tudo em rodadas na tasca, máquinas no casino e em patuscadas com os amigos. Esquecem-se que a herança é a acumulação de trabalho e suor passado, que deve servir para construir algo melhor para as gerações seguintes.

Ora bem, perguntar-me-ão para que serve esta metáfora?

O Dia de Defesa Nacional arrancou ontem pelo país fora, com o intuito de aproximar as Forças Armadas dos jovens, com a particularidade de ser o primeiro ano em que passa a ser obrigatório também a presença das raparigas. É uma grande operação charme para melhorar as taxas de ingresso nas Forças Armadas: a predisposição de ingressar nas FA caiu de 52,8% (2007) para 38,9% (2009), de acordo com um estudo de Luís Baptista da Universidade Nova de Lisboa. Procurando a integração das mulheres nas FA, Portugal consegue hoje em dia ostentar o 4º lugar no ranking da NATO de maior participação de mulheres nas FA.

Tudo isto é motivo de celebração, na minha opinião. Um dos bastiões das masculinidade - a defesa - está aos poucos a se abrir às mulheres, para assim as FAs desempenharem um papel pro-activo na defesa da igualdade do género. E 'ponto final'.

Contudo, como a defesa de certos feminismos infelizmente se encontra sequestrada por uma esquerda esquizofrénica, qual é a reacção da UMAR, "União de Mulheres Alternativa e Resposta"? A UMAR discorda da necessidade de "haver um dia de defesa nacional com obrigatoriedade, coimas altíssimas e interdição de candidatura à função pública" em caso de não comparência. "É algo que não faz sentido quando a República não está em perigo, devia ser substituído por um dia com outros valores que não os belicistas", acrescentou a dirigente Manuela Gois.

É no mínimo ridículo, e no máximo pode ser contraproducente. Em vez de utilizar o legado do feminismo de maneira positiva, para criar equilíbrio entre os géneros, procura impor dogmaticamente a sua lógica esquerdista, e pior - ousando falar em nome de todas as mulheres portuguesas. É neste sentido que temos que olhar para heranças com responsabilidade e com credibilidade para que qualquer projecto possa ter futuro.

Questionar a legitimidade das FAs no actual cenário mundial ditado pela incerteza é altamente perigoso e só demonstra a agenda política que se esconde por detrás desta ONG, olhando só a conquistas e negligenciando os necessários deveres que acompanham todos os direitos.

Não me deixo representar assim enquanto mulher e até tenho pena de hoje não ter 18 anos para assim poder participar nas actividades do Dia de Defesa Nacional.

RB

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Economia, Neoliberalismo e Cartas Abertas

Esta carta aberta a Mario Crespo, a propósito do programa "Plano Inclinado", é curiosíssima. O autor, Jorge Bateira, economista, insurge-se contra o facto de o referido programa alegadamente “ofende[r] o direito dos cidadãos portugueses a uma informação plural e rigorosa”. E porquê? Porque os comentadores que botam faladura no programa “representam apenas um segmento de opinião”. E, supremo topete, que segmento é? É o funesto espírito que anima os demónios da contemporaneidade: o neoliberalismo ou a “pura ideologia neoliberal” (recomendo rasgar as vestes quando se ler ou entoar tal expressão; eu tentei e senti-me bem).
Eu proponho o seguinte: que se obrigue – aliás, Jorge Bateira entende que só “resta apelar para a entidade reguladora da comunicação social” se Mário Crespo “não qu[iz]er fazer um programa em que o pluralismo de análise económica e de políticas seja real” – o jornalista da SIC a incluir: um economista neoliberal; um dito estatista; um dito marxista; um dito defensor da economia clássica; um dito libertário; um dito anarquista; um dito fascista; um dito jardineiro nas horas vagas; um dito leitor de banda-desenhada da Marvel; etc. Afinal, que mundivisões fulcrais para a nossa percepção dos dias que passam não terão tais supostos especialistas nas vertentes dessa “ciência”? E, pugnando nesse sentido, digo com Jorge Bateira: basta!
Bem, devo afirmar que sei pouco acerca desse conceito que muito anda nas penas e nas bocas dos homens pensantes da actualidade. Julgo, porém, que o mesmo assume uma conotação assaz pejorativa – muito mais uma arma de arremesso ou insulto ou, ainda, de amplificador de indignação contra a “exploração do homem pelo homem”.
A questão é a da liberdade de uma estação televisiva, privada, expressa num programa dinamizado por um jornalista que tem as suas simpatias e ideologias consabidas – e que entende dar-lhe a forma que bem entende. Expressões como: “pura propaganda ideológica” e “manipula[ção] da opinião pública usando um bem público” deixam-me atónito. Se assim é, todos os comentadores e “opinion makers”, mais ou menos estatistas ou mais ou menos liberais, pelo simples facto de emitirem as suas opiniões, em meios de comunicação social, são propagandistas e manipuladores. E há-os, de várias cores e em várias tribunas.
Resta escolher.

FS

sábado, 18 de setembro de 2010

3 Verdades com 5 anos(ou Vidência pt. I).


Por Volta de Abril de 2005, pouco tempo depois de Sócrates ter ganho as eleições a Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite(insuspeita de ser chamada de Santanista-ou Santanette) desmentia 3 dos baluartes eleitorais (que é como quem diz "promessas") do então novo líder Governativo. E à época nem imaginava que voltaria à política, tempos antes de ser forçada a ocupar o vazio deixado por L.F. Menezes. Taxativamente a dama de ferro clamava: « As Scuts vão passar a ser pagas (logo deixarão de ser Scuts), o Aeroporto e o TGV serão cancelados e o Governo vai aumentar impostos. Sócrates pode dizer o que quiser, mas não há dinheiro, qualquer cenário diferente é irrealista e não terá a anuência da CE». Mais coisa menos coisa, e relembrado de cabeça, foi isto que a mulher mais odiada do País disse. Depois de mais um puxão de orelhas em sede de Conselho Europeu, a seguir ao qual (e uma vez mais) Sócrates é obrigado pelos seus pares Europeus a deixar cair uma das suas utópicas bandeiras. Desta vez o TGV. Manuela, Tal como Medina Carreira, Ernani Lopes e outros não são, nem podem ser, o futuro do País. De resto até é irritante a forma cheia de soberba como falam das novas gerações e do futuro da Nação. O seu conservadorismo causa desconforto, e faz lembrar tempos que muitos não viveram. O pior é que provavelmente têm razão.
TF

País a Azul e Vermelho


Há 2 anos atrás preparava-me para umas férias em Itália. Conheceria nessa altura a "Cidade Eterna," Roma, a então "Cidade do Lixo", Nápoles (sempre é´melhor que o epíteto "Cidade Camorra") e ainda a fantástica «Scavi» de Pompeia. Confesso que a visão do Vesúvio me trouxe lembranças da minha amiga de infância Maga Patalógica. Além disso a minha relação com as Piz(z)as, nomeadamente as feitas na Madeira ficou profundamente alterada. Piz(z)as é como se faz em Itália e não se fala mais nisso. Contudo o que mais me fascinou foi a profunda cisão na sociedade Romana, e Italiana em geral, entre azuis e vermelhos. Ali não há meias tintas, ou se é bem à direita ou bem à esquerda. O Centrão, esse objecto híbrido, estranho e de valências várias ,de que nós somos especialistas, parece ser residual no País de Victor Emanuel. Há zonas na cidade claramente dos azuis, outras dos vermelhos. Quando precisei de ir à Esposizione Universali di Roma(EUR), bairro construido para albergar uma mostra do Império de Mussolini em 1942 (assim ao jeito da Exposição do Mundo Português), questionei algumas pessoas na rua acerca da sua localização. Percebia de imediato quem era "azul" e quem era "vermelho". Os primeiros diziam-no por extenso, e com a boca cheia de orgulho. Os segundos limitavam-se à sigla, já de si alterada do original "E42", com um olhar desconfiado ao estilo « mas que raio vai este tipo fazer àquela zona proibida?». Mesmo no Desporto as coisas são bem claras. Cada uma das Grandes cidades tem um Clube Azul (Nápoles, Inter,Lázio,Bréscia, Juventus - esta apesar de não equipar com a dita cor) e uma Vermelha(Milan, Roma, Torino, Réggiana, Livorno). Símbolos maiores dessa "luta" serão os avançados Lucarelli, do Livorno, que comemora os Golos com o punho esquerdo fechado, e Paolo di Canio, ex-Lázio, que comemorou algumas vezes com o braço direito estendido da saudação Fascista. De resto este último chegou a ser suspenso por efectuar este gesto(meses depois de ter ganho prémio fair-play da FIFA por ter atirado para fora a bola quando, a centimetros da linha de golo, percebeu o guarda-redes adversário lesionado), o que nunca aconteceu ao seu adversário comunista. Por fim a política: sabe-se que a itália tem um nível médio de administração pública de excelência,o que permitiu que o País prosperasse nos anos 80 e 90, quando os governos duravam uma média de 4-6 meses. Além disso a economia é verdadeiramente privada, competitiva, com empresas de referência verdadeiramente capitalizadas, em sectores vitais nas sociedades modernas como os transportes e a energia. Num País em que Gianfranco Finni já é visto como um moderado percebe-se a dimensão da "coisa". Berlusconi, apesar da imagem boçal que sustenta, teve(tem) o mérito de ter estabilizado um modelo governativo que parecia destinado à instabilidade constante. E personifica o que metade dos italianos também glorifica: o sucesso pessoal e empresarial, e a clareza de posições. Estranho é que um indivíduo com o perfil do ex-Presidente da CE Romano Prodi tenha sido duas (!!!!) vezes 1ºMinistro, cada uma das quais por cerca de dois anos. É que Prodi, nas suas meias tintas e preocupação excessiva com o politicamente correcto, introduziu uma nova cor, efémera, na cultura Italiana: o cinzento!
TF

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Porque os cemitérios são depositários de histórias e sonhos


"Cemetery Ride", Billy Collins







"My new copper-colored bicycle
is looking pretty fine under a blue sky
as I pedal along a sandy path
in the Palm Cemetery here in Florida,

wheeling past the headstones of the Lyons,
the Campbells, the Vesers, and the Davenports,
Arthur and Ethel, who outlived him by eleven years
I slow down even more to notice,

but not so much as to fall sideways on the ground.
And here's a guy named Happy Grant
next to his wife Jean in their endless bed.
Annie Sue Simms is right there and sounds

a lot more fun than Theodosia S. Hawley.
And good afternoon, Emily Polasek,
and to you too, George and Jane Cooper,
facing each other in profile, two sides of a coin.

I wish I could take you all for a ride
in my wire basket on this glorious April day,
not a thing as simple as your name, Bill Smith,
even trickier than Clarence Augustus Coddington.

Then how about just you, Bernice Owens?
Would you gather up your volumious skirts
then ride sidesaddle on the crossbar
and tell me what happened between 1863 and 1931?

I'll even let you ring the silver bell.
But if you're not ready, I can always ask
Amanda Collier to rise from her long sleep
beneath the swaying gray beards of Spanhish moss

and ride with me along these sandy paths
so I can listen to her strange laughter
as some crows flap in the blue overhead
and the spokes of my wheels catch the dazzling sun. "




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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Diálogo 2

Anti-Profeta - Posso ler-te uma coisa?
Profeta - Sim, mas despacha-te.
A.-P. - "Ele, Agilulfo, tinha sempre necessidade de sentir perante si as coisas como um espesso muro, ao qual contrapunha a força da sua vontade. Só assim conseguia manter uma segura consciência de si mesmo."*
P. - Bem-vindo.
A.-P. - Bem-vindo?
P. - Bem-vindo aos tempos modernos.
A.-P. - A obra foi publicada, inicialmente, em 1959. E não me parece que era isso que Italo Calvino tinha em mente.
P. - Substitui "segura consciência" por "segurança consciente".
A.-P. - Hoje estás fluente...
P. - Mais uma dessas e dou-te uma cabeçada.

* Italo Calvino - O Cavaleiro Inexistente

FS

Diálogo 1

Profeta - Deita-me aí um whisky...
Anti-Profeta - Parece-me que há um desnorte geral.
P. - Quê?
A-P. - Desnorte!
P. - De quê?
A-P. - Por parte das pessoas.
P. - Que tem isso a ver com o Red Label?
A-P. - Apenas a desfiar conversa...
P. - E porquê?
A.-P. - Porquê o quê?
P. - Porque achas que há desnorte?
A.-P. Porque as latitudes e as latitudes já não respondem às bússolas.
P. - Não percebi.
A.-P. - Deixa lá.
p. - Hmm.
A.-P. - O que será que substitui os valores, hábitos e convenções que sofrem hoje erosão?
P. - Os valores não sofrem erosão nenhuma.
A.-P. - Não?
P. - Isso é conversa fiada...
A.-P. - Eu disse que estava a desfiar conversa...
P. - Tretas.
A.-P. - Acho que tens razão. Morreram costumes, isso sim - um corpo normativo, consentido e defendido, de direito consuetudinário.
P. - Isso mais depressa.
A.-P. - E as pessoas, sem rede por debaixo da corda bamba, têm de refugiar-se noutras normas, noutros códigos. Coisas dos tempos nossos, velozes e transitórios.
P. - Nunca te disseram que usas demasiado as palavras norma e normativos, etc. e tal?
A.-P. - É capaz.
P. - E porque achas isso importante?
A.-P. - Porque, sem práticas forjadas na têmpera dos tempos, hoje anseia-se por regulamentar tudo e proibir muita coisa.
P. - Passa-me daí uma linguiça para pôr aqui na grelha.
A.-P. - Não concordas?
P. - Hmm... Ainda há coisas do passado que guiam a gente.
A.-P. - Mas é tudo remetido para um baú de velharias.
P. - Referes-te a quê, concretamente?
A.-P. - Arranjas-me um cigarro?
P. - Outra vez?
A.-P. - Refiro-me à mentalidade higienista e dietética, ao ambientalismo militante e autista, ao pacifismo de sofá, à repressão do vício e da liberdade de, se quisermos, sermos decadentes.
P. - É capaz de ser, é.
A.-P. - Olha, a penalização das drogas, por exemplo.
P. - Sim.
A.-P. - Muita gente não imagina que, em termos históricos...
P. - Vamos falar de história outra vez?
A.-P. - Não.
P. - Ok.
A.-P. - A penalização é coisa recente. O poeta consumia ópio para aguentar a vida.
P. - Quem?
A.-P. - "Olá, guardador de rebanhos, / Aí à beira da estrada".
P. - Rebanhos?
A.-P. - Fernando Pessoa!*
P. - Outro louco.
A.-P. - Outros loucos, queres tu dizer.
P. - Liberdade a mais mata.
A.-P. - É possível, mas isso não é razão suficiente para coarctá-la.
P. - P'ra quê?
A.-P. - Esquece.

* Isto é, Alberto Caeiro.

FS

A "guerra dos sexos"

A 'colectânea' da Caixa de Pandora foi ao Directo Europa da RJM 88.8, no passado 11/09. Falamos sobre as nossas moderadas e acaloradas opiniões sobre a 'guerra dos sexos'. Aqueceu! video

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Radio Directo Europa 21/08

video

A Caixa de Pandora foi ao Directo Europa, Radio Jornal da Madeira, no passado dia 21/08 debater portugalidade... No final ainda ficamos com dúvidas sobre o que é efectivamente a portugalidade, mas a conversa foi animada!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Piromania de Ideias


Num anterior post, referi a minha preocupação face a uma vaga de manifestações de intolerância na Europa, e a impunidade pela qual passam na opinião pública. Era referente à situação da comunidade Roma e a sua expulsão do território francês.

Hoje trago-vos mais um exemplo chocante, desta vez da Alemanha. Trata-se das mais recentes afirmações xenófobas de Thilo Sarrazin, membro do conselho executivo do Bundesbank, membro da SPD, ex-Senador de Berlim (pasta das Finanças), e frequente agitador popular sobre temáticas quentes como a imigração e Harz IV (o equivalente ao RSI).

Lançou na passada 2ªf o seu livro, "Deutschland schafft sich ab" ("A Alemanha em Queda"), onde desenvolve uma panóplia ofensiva de argumentos controversos. Entre afirmações de que os "judeus têm um gene especial" e "os imigrantes estão a estupidificar a Alemanha", Sarrazin chamou a atenção dos media para um aumento do medo de uma hipotética "islamização da Europa". Neste livro Sarrazin não quer que os seus "filhos e netos cresçam num país onde são a minoria". Onde será que já ouvimos estes argumentos de limpeza genética, caracterização monolítica de povos, e apresentação em bandejas prateadas de bodes expiatórios?? Pergunta retórica, nem preciso de responder meus amigos.

Pessoas deste género padecem de uma doença parecida à piromania, sentindo particular excitação em ver o efeito incendiário das suas palavras nas massas. Partidos da extrema direita na Europa já louvam Sarrazin, entoando que o que a Europa precisa é de "Sarrazin e não mujahedin". É preciso alertar para que a nossa geração não seja testemunha activa da nova "jewish question", agora transformada em "muslim question".

Pelo menos desta vez o conselho executivo do Bundesbank através de Axel Weber teve uma atitude coerente e exonerou ontem Thilo Sarrazin deste órgão do banco. Resta agora esperar pelo confirmação desta decisão por parte do Presidente Alemão, Christian Wulff, mas a pressão de Angela Merkel, de todos os partidos políticos, quadrantes sociais, e ultraje internacional, certamente irão conduzir Wulff à exoneração definitiva de Sarrazin.

Curioso é a semelhança etimológica do seu sobrenome com os "Sarracenos": ele assina com o antigo nome dos mesmos que tanto abomina. Mas o que é mesmo curioso é que o próprio Thilo Sarrazin é descendente de Huguenotes, o grupo de protestantes franceses perseguidos no séc XVI e acolhidos pela Prússia, entre outros territórios protestantes.

De facto a memória humana é bem curta e lamento que assim a própria memória genética não consiga contribuir para uma sociedade mais plural.

RB